Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Centro empresarial, senhor distinto, entra mudo e eu dirijo calado. No rádio Chico Buarque diz que vai passar nessa avenida um samba popular, cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar... baixinho. Lá fora garoa fina. Quando a música diz que aqui sambaram nossos ancestrais o farol fecha, paro, desengato marcha, aciono freio de mão. Vou relaxar os três minutos do semáforo. Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sinto o solavanco, batida na traseira. E um dia, afinal tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval. Pergunto se está tudo bem e o passageiro diz que sim, algo caiu do colo dele para o assoalho, ligo a luz interna desligo o carro e desço. O outro motorista já desceu, observa calado o estrago que causou - não coça a cabeça, mas tem as mãos sobre a testa. Eu pergunto se ele está bem, ofereço a mão direita em sinal de paz, aviso que tenho seguro e pergunto se também tem, ele diz que sim. Está aéreo, aproveito para garantir o reparo, pergunto se a documentação pessoal está em ordem, confirma que sim, peço para ver, ele mostra. Faço uma foto frente e verso da CNH e do cartão de seguro dele. Só então vou conferir o estrago no meu carro. Para-choque entrou no porta-malas, meu Sedan virou Hatch. Peço o telefone do distraído, ele diz, eu ligo na hora, toca no bolso dele, OK, contato confirmado. Sugiro irmos embora e amanhã nos falarmos. Ele aceita, ainda está com as mãos na cabeça. Volto para o carro e aviso meu passageiro que estou chamando outro carro para ele seguir viagem. Vou recolher o meu. Gentil, ele pergunta se vou chamar guincho para meu veículo, digo que não, vou rodando. Ele diz que está relativamente próximo de casa e não se incomoda de terminar a viagem comigo. Agradeço. Ligo o carro e a música recomeça em palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar, meu Deus, vem olhar... Estou sem lanternas traseiras, dirijo com cuidado. O passageiro pergunta se o estrago foi grande, respondo que eu choraria se tivesse apego material. Ele se oferece como testemunha que eu estava parado no semáforo, entrega um cartão para ser contatado a-pe-nas se necessário. Dá ênfase no apenas. Agradeço mais essa gentileza e ele se vai. No waze direciono para casa. Chico continua ai que vida boa olerê, ai que vida boa olará, o estandarte do sanatório geral vai passar. Segundo a oficina serão vinte dias de reparos. O nome da música diz tudo, vai passar.
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