Daí toca e vou lá... Bairro antigo, casas antigas, carros antigos, vizinhos antigos. Ali onde parece ser o endereço de origem uma pequena aglomeração de idosos. Encostei antes do tumulto e avisei: “estou aguardando em frente ao número tal”. Veio uma adolescente: "Você é o uber?" Sim, eu sou o uber, tem inclusive um adesivo no para-brisa dizendo que sou o uber, mas vai que a pessoa não sabe ler? "Sim, sou uber". Parece aflita: "Moço, eu e minha mãe vamos com você, minha vó vai com meu pai. Eles estão levando meu vô no hospital". Ela falando assim eu deveria entender o cenário inteiro e não ter mais perguntas, porém me habita um demônio da curiosidade. Ele fica dando saltos em minha mente: “pede detalhes, os detalhes sórdidos, pergunta” mando ele se aquietar e confiro o nome do usuário, ela responde: "É o meu pai... É que não vai caber todo mundo no nosso carro". OK, não vai caber todo mundo no carro, agora ficou tudo claro! ...o demônio dá saltos duplos carpados em minha mente... Distraio a curiosidade observando o tumulto, parece uma rave da terceira idade. A mocinha diz que vai buscar a mãe e volta para o meio da aglomeração. Desligo o motor. Um idoso abraça a adolescente, ela faz esforço para se desvencilhar, outra senhorinha acaricia seus cabelos, ela faz uma finta de corpo, mãos a assediam em direção ao portão. São carinhos de consolo, de apoio moral, de pêsames. Começo a reparar. Rostos chorosos. Olhos vermelhos. Semblantes abatidos. Não parece mais uma Rave de idosos. Continuo sondando o povaréu, todos velhinhos, marcando presença na desgraça alheia. Um senhorzinho tem cara de aliviado, talvez por saber que não será o próximo a virar saudade. Cada qual segura um celular, esperam a chance, se for o caso, de fazer selfie com o defunto da vez. Definitivamente alguém está nas últimas. A mocinha demora a voltar. Já deu cinco minutos, poderia cancelar só de maldade – às vezes sou mau. Não tenho coragem de sair, acelerar deixando os velhinhos estupefatos, me achando desalmado. Vai que rogam praga? Praga coletiva de idosos pega! Aguardo. De repente um dedo enrugado aponta para meu carro, todas as cabeças branca se viram em minha direção. Arrumo a postura, começo apensar que o coitado morreu. A adolescente volta correndo e pelo vidro semiaberto grita: "Moço, você pode ir até o portão? O carro do meu pai não está pegando". Ela realmente sabe se comunicar. Aceno com a cabeça e aciono o motor, avanço com cuidado para não atropelar antigos foliões. Eles vão subindo para a calçada comportadamente. Ouço conversas. Meu futuro passageiro sentiu uma batida mais rápida e mais forte no coração, alertou o genro, que alertou a esposa, que alertou a mãe, que alertou o bairro com seus berros de desespero. O burburinho abre caminho e vejo um idoso amparado por uma senhorinha e um homem. O velho não parece precisar de amparo. Tem uma latinha de cerveja na mão. Resmunga excesso de cuidados e entra sem dificuldades, senta atrás do carona. A senhorinha passa pela frente do carro, o rosto tem marcas de choro, senta atrás de mim, fala alto com o genro e com o velho. O genro vai até a garagem, pega algo no carro e volta. Ocupa o banco do carona. Pergunto se podemos seguir viagem, pede que espere a esposa, ela saí da casa com uma bolsa, espreme a senhorinha para o banco do meio, ambas conversam aflitas, cogitam tragédias. Mãe e filha. O velho é o cardíaco, está a caminho do hospital e o carro na garagem falhou. Eu era carro de apoio e passei a carro ambulância. A mocinha fica na calçada, alguns braços a amparam. Já não me parece tão aflita. Quando aciono o waze o velho pergunta: "Posso beber minha cerveja dentro do carro?" Penso em negar, mas na emoção do momento seria negar o último pedido de um moribundo. Não tenho coragem. "Pode, mas por favor não derrame". Levo um senhor esporro: "É cerveja! Eu nunca derramei cerveja na minha vida!" a voz está firme, não parece alguém em ataque cardíaco. Fosse da minha família eu não permitiria álcool nesta situação, está enfartando! Ou não? Começo a duvidar da sinceridade dessa morte anunciada. Sentimentos maus dançam entre minha mente e meu coração. Lá adiante uma lombada. Vou devagar, olho pelo retrovisor, quando o velho vai dar uma talagada eu acelero de leve, passo na lombada em velocidade além do recomendado, o carro dá um solavanco. Só vejo a boca fazendo bico, a lata subir, a baba descer e molhar a camisa. O velho pragueja alto, irado, as duas acodem. A filha oferece um pano, a velha oferece a vida, o genro não diz nada. Eu finjo que não é comigo, meus demônios sorriem. Sorte de todos que o hospital é perto.
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