quinta-feira, 17 de maio de 2018

PIMPÃO

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Barra Funda, meio da tarde, na calçada um homem grande, ossos largos, barbudo, cara de mau, parece um urso. Ele aponta o dedo para mim e entendo que sou a vítima, aliás, o motorista da vez. Não tenho onde encostar para embarque. Atrás de mim um carro pede passagem, acelero levemente e paro poucos metros a frente, entrada para a garagem do prédio. É a única alternativa para embarcar o passageiro sem risco de multa ou de barrar o trânsito. A lei de Murphy ataca novamente! O veículo atrás de mim deu seta, pretende entrar na garagem que estou travando passagem. Nem dois segundos e já está buzinando. Na segunda buzinada ainda grita que estou atrapalhando entrada na garagem. "Eu sei imbecil" - só penso, faço sinal de jóinha. Meu passageiro chega ao lado do carona e abre a porta, terceira buzinada, não entra, fica mais incomodado que eu. Vocifera um palavrão para o buzinador, recebe um xingo de volta. Discutem aos berros, peço que deixe pra lá e entre, o buzinador levanta o dedo do meio. Furdunço está feito! Eu só quero que o passageiro entre logo no carro... mas eu não tenho querer. O urso larga a porta aberta e anda em direção ao buzinador. Mentalmente me obrigo a descer e dar voadora também, afinal a briga era minha! Não preciso nem desafivelar o cinto, meia duzia de homens já estão fazendo o 'deixa-disso' . Ficam rosnando gentilezas verbais. Não mordem. No aplicativo a mensagem que posso cancelar caso não encontre o passageiro. Não vou cancelar! É questão de honra levar esse passageiro ao seu destino. O da buzina é um babaca, custava nada ter paciência, mas estou errado... A turma apartou os machos, ambos ainda mostram os dentes, estão com a honra intacta. Urso feroz entra, senta no banco do carona, pragueja contra a insensibilidade urbana, a falta de gentilezas, a impaciência coletiva. Eu me pergunto, só para mim, onde ele colaborou com a inversão desse estatus? Não sou besta de verbalizar. Confirmo endereço somente após abandonar a entrada da garagem. Ursão diz que nem ficou bravo de verdade, só quis usar o tamanho e aparência de mau para intimidar. Ri da situação, parece ser do bem. Pega o celular para conferir meu nome no aplicativo. Diz que pareço bem mais jovem na foto de motorista. Não comento, não sei se foi um elogio. O Urso insiste: "apesar de te envelhecer a barba te deixa mais másculo". Não agradeço, não sei se foi um elogio. Trânsito para, aciono o freio de mão e meu braço esbarra no braço peludo do Ursão. Não sei se foi acidente. Pode ser distração, ainda sangue quente da discussão. Ele parece alheio, cantarola as músicas da playlist acústico "Marvin, agora é só você / E não vai adiantar / Chorar vai me fazer sofrer..." no semáforo meu braço roça novamente o peludão. Fico alerta, ele deixou o braço estendido ao longo do encosto de propósito! Agora estou incomodado com o urso me encarando. Devo ter cara de colmeia. Trânsito anda, destravo o freio de mão com cuidado para não encostar no braço do Urso. Ele para de cantarolar e fala sobre coisas diversas, não estou ouvindo. Estou indignado, seguro as próximas paradas na embreagem. Dirijo concentrado em não mais roçar meu braço no Urso Pimpão. Na ladeira não tem jeito, sinal fechado, é muito tempo para queimar embreagem, tomo cuidado para acionar o freio, consigo evitar contato com o braço peludo. O Pimpão está calado, eu estou calado, Titãs está sozinho no refrão "Marvin, a vida é prá valer / Eu fiz o meu melhor / E o seu destino eu sei de cor..." sinaleira abre, os carros a minha frente se movimentam, engato primeira e vou soltar freio de mão: "PU-TA-QUE-O-PA-RIU-CA-RA-LHO!" Esse sou eu gritando. A mão do Pimpão estava na manopla do freio de mão. Eu peguei na mão do urso! Até deixei o motor do carro morrer. Atrás de mim alguém buzina, eu estou soltando o verbo, furioso. Pimpão está encolhido contra a porta, não vou agredir, só estou ofendido, pedindo respeito. Ele pede desculpas. Não estou disposto a perdoar assédio. Encerro a corrida, ligo o motor e deixo de atrapalhar o trânsito, paro além da esquina e peço que desça. Desce calado. Eu acelero aborrecido. Paro em local seguro e faço relatório. O aplicativo diz que lamenta pelo comportamento inconveniente do passageiro, assegura que nunca mais receberei chamadas para atender o Ursão. É um alento! Se o Pimpão insistir em frear, ou ligar o pisca, ou trocar a marcha será com outro motorista.

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