Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Mentira, não vou, estou enrolando porque fui pego desprevenido e a corrida é pool. Não gosto de pool, quando aceito chamado compartilhado fico parado um tempo rezando para o outro lado cancelar. Se não eu mesmo cancelo sem cobrar do passageiro. Mas dessa vez deu ruim, minha taxa de cancelamento está alta e a de aceitação está baixa. Melhor atender! Dirijo lentamente, pareço taxista transportando idoso e querendo ganhar mais no tempo da viagem (que comecem as tretas). A lerdeza na esperança que cancelem, não funciona. O endereço é um mercado. A dona está em frente, dá sinal agitando o celular, paro e ela entra com uma sacola pequena de compras. Cara fechada - está bufando a promessa de poucas estrelas. Confirmo nome e destino, ok. Toca o segundo passageiro, o waze redireciona para dar a volta no quarteirão e retornar para frente do mercado. Espero e sai outra mulher com duas sacolas grandes, desço e abro o porta-malas ela sorri, agradece. Gentileza gera gentileza, abro a porta para ela. Confirmo endereço, a gentil terá desembarque primeiro. As duas começam a conversar, descobrem que fizeram passeio recente para o mesmo destino, em minutos são amigas de infância, trocam telefones. Chego ao destino da gentil, ela se despede da sisuda e desce. Abro o porta-malas retiro suas compras e aviso o valor da viagem, ela se desculpa: “Meu Deus! Estava esquecendo o pagamento.” entendo, relevo, voltamos para o carro para ela pegar o troco. Pego dinheiro num compartimento secreto... só eu escondo dinheiro no carro! A sisuda se mete: "Você não tem que dar dinheiro para ele, a Uber desconta no cartão!" Eu me assusto. A gentil não entende, a sisuda aponta o dedo seco para mim e extrapola: "Ele está te roubando. Não tem que dar dinheiro para o motorista porque o aplicativo cobra no cartão de crédito!" A gentil não sabe aonde enfiar a cara de vergonha alheia e me defende: "Eu pedi a corrida com pagamento em dinheiro...". Alguns minutos de silêncio e a sisuda murmura, parece voltando de outro planeta: "Existe essa opção, de pagar em dinheiro e não no cartão de crédito?". "Sim!!" - eu e a gentil respondemos em uníssono. A sisuda parece que vai pedir desculpas "Eu não sabia..." mas não pede. Devolvo o troco, fico pensando se mando a sisuda descer, se termino a viagem, se... mil coisas! A gentil percebe meu dilema, está sem palavras e só me deseja boa viagem. Não se despede da outra, definitivamente não quer mais papo com a criatura, aposto que vai bloquear no whattsapp. Fica na calçada, sacolas nas mãos. Vou cumprir meu destino. Desligo novas chamadas, dentro do carro o silêncio é palpável. Pouco depois chegamos ao endereço final, encerro a viagem e ouço a porta se abrir. "Você me chamou de ladrão" - comento sem me virar, sem alterar a voz, só para deixar claro o desaforo. De verdade não esperava que ela se desculpasse, e ela não o fez. Ouço a porta se fechar e dou uma estrela para a sisuda, merecia ser bloqueada no aplicativo. Acelero "eu deveria ter cancelado mais esse pool" - lamento.
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