terça-feira, 15 de maio de 2018

ACREDITO É NA RAPAZIADA

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Tudo normal, nenhum evento digno de crônica, dou cinco estrelas porque não pediu água, nem balinha, não reclamou dos vidros abertos, cantarolou 'pais e filhos' com o Renato Russo, deu boa noite, não bateu a porta. Beirada de periferia, rua torta, melhor desligar o aplicativo. Estou com o dedão na tela do celular quando a cara feia invade o carro pelo meu vidro aberto, o coração dispara, a respiração para, os pensamentos embolam e sinto o bafo da fera tabelando no meu rosto: "você é uber?" penso em acelerar feito Dominic Toretto, mas respondo feito Nerso da Capitinga: "Sou né?" A porta atrás de mim abre e fecha. O tal entrou e manda seguir em frente. Eu deveria retornar, pergunto se é assalto: "tenho cara de vagabundo?" tem sim, mas não sou besta de responder, fico calado. "TENHO CARA DE VAGABUNDO?" perguntando assim, enfiando a cara entre os bancos e incomodando meu tímpano direito, sou obrigado a responder: "Não senhor." O bafo tabela na minha orelha: "Sou traficante rapaz!" diz isso como se fosse melhorar minha noite. "Meu celular, só paguei oito das vinte parcelas" - penso, não falo nada. Fui roubado duas vezes só esse ano. No começo do ano levaram o primeiro celular, ainda me deram uns 'pedala-robinho'. Comprei outro aparelho em várias parcelas, dois meses depois fui roubado novamente, fiquei sem celular outra vez. Fiz outro parcelamento e comprei novo celular! Só tenho feito para pagar celular, dois carnês de prestações. Mas no momento o bem material deixa de ser importante, que levem o terceiro celular! Meus pensamentos encenam grandes tragédias, em todas elas termino estirado em alguma viela do morro. "hastag-tio-te-ama, olha isso Deus! Nem vou ver meu sobrinho crescer? Abençoa Jesus, minha mãe vive me pedindo neto. Preciso mesmo fazer um filho, estou ficando velho, apareceu um chumaço grisalho no topete, estilo Bonner. Se eu sair dessa vou dar um primo pro meu sobrinho, prometo! Nem ligo pro celular, nem ligo em pagar três carnês, nem ligo se meu time for rebaixado outra vez, nem ligo se colocarem uva-passa no arroz de natal, nem ligo, Jesus, nem ligo..." o traficante manda virar ali, subir aqui, é um waze de favela ambulante. Manda parar, paro. O traficante desce, deixa a porta aberta, encosta do meu lado e espera duas figuras que se aproximam, cada qual um trabuco nas mãos, não sou especialista em AR15, M16, AK47,  para mim são canhões! É agora que aparece a luz branca me chamando... será que eu vou pro céu?” coração bate duas vezes por minuto, respiração parou faz tempo. O meu algoz entrega um pacote para a dupla, jogo rápido, se despede: "dá um salve pros irmão". Obedeço, digo "Salve!" os três se viram e ficam me olhando como se eu fosse um ET. Percebo que paguei mico, o traficante não falou comigo. "acabei de pagar o último mico de minha vida" - penso. Ninguém ri. Voltam aos gestos de despedidas, o que não-tem-cara-de-vagabundo entra e manda eu voltar. Digo que não lembro o caminho, me chama de Zé-Ruela e incorpora o waze de favela. Retornamos a rua torta. Manda parar eu paro. Paro e volto a travar orifícios. Volto a lamentar o celular com prestações a pagar. Volto a orar abrindo mão do campeonato. Volto a hastag-tio-te-ama. Volto a promessa de comer arroz com passas. Volto a orar Meu-Deus-Só-Me-Tire-Daqui. A porta traseira abre, sinto um joelho forçando no meu encosto, tensão a mil, ele desce e bate a porta. Pelo vidro aberto estende uma nota de dez reais. Penso em recusar, "vai achar que estou desdenhando" pego. Penso em agradecer "bem que podia ser uma nota de cinquenta reais" fico calado. Ele ordena: "VAZA!" dou seta "Se não tivesse travado vazava" - só penso. Já que dei seta, seria bom acelerar lentamente sem demonstrar pavor, mas os pneus queimam... eu desisto da pose, eu erro a marcha, eu queimo embreagem, eu não olho para trás. Acelero e vazo. "Fidumaégua bateu minha porta!" resmungo ainda baixinho, olhos fixos na avenida lá longe. Não reduzo na esquina, entro com tudo, ouço frenagem forte "devo ter fechado alguém". Nem ligo. Ouço buzina. Nem ligo. "deve ter me xingado" - nem ligo. Estou indo pra casa me limpar e fazer um neto para minha mãe.

Agradecimento: Maxwel Dalabeneta

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