Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Barra Funda, meio da tarde, na calçada um homem grande, ossos largos, barbudo, cara de mau, parece um urso. Ele aponta o dedo para mim e entendo que sou a vítima, aliás, o motorista da vez. Não tenho onde encostar para embarque. Atrás de mim um carro pede passagem, acelero levemente e paro poucos metros a frente, entrada para a garagem do prédio. É a única alternativa para embarcar o passageiro sem risco de multa ou de barrar o trânsito. A lei de Murphy ataca novamente! O veículo atrás de mim deu seta, pretende entrar na garagem que estou travando passagem. Nem dois segundos e já está buzinando. Na segunda buzinada ainda grita que estou atrapalhando entrada na garagem. "Eu sei imbecil" - só penso, faço sinal de jóinha. Meu passageiro chega ao lado do carona e abre a porta, terceira buzinada, não entra, fica mais incomodado que eu. Vocifera um palavrão para o buzinador, recebe um xingo de volta. Discutem aos berros, peço que deixe pra lá e entre, o buzinador levanta o dedo do meio. Furdunço está feito! Eu só quero que o passageiro entre logo no carro... mas eu não tenho querer. O urso larga a porta aberta e anda em direção ao buzinador. Mentalmente me obrigo a descer e dar voadora também, afinal a briga era minha! Não preciso nem desafivelar o cinto, meia duzia de homens já estão fazendo o 'deixa-disso' . Ficam rosnando gentilezas verbais. Não mordem. No aplicativo a mensagem que posso cancelar caso não encontre o passageiro. Não vou cancelar! É questão de honra levar esse passageiro ao seu destino. O da buzina é um babaca, custava nada ter paciência, mas estou errado... A turma apartou os machos, ambos ainda mostram os dentes, estão com a honra intacta. Urso feroz entra, senta no banco do carona, pragueja contra a insensibilidade urbana, a falta de gentilezas, a impaciência coletiva. Eu me pergunto, só para mim, onde ele colaborou com a inversão desse estatus? Não sou besta de verbalizar. Confirmo endereço somente após abandonar a entrada da garagem. Ursão diz que nem ficou bravo de verdade, só quis usar o tamanho e aparência de mau para intimidar. Ri da situação, parece ser do bem. Pega o celular para conferir meu nome no aplicativo. Diz que pareço bem mais jovem na foto de motorista. Não comento, não sei se foi um elogio. O Urso insiste: "apesar de te envelhecer a barba te deixa mais másculo". Não agradeço, não sei se foi um elogio. Trânsito para, aciono o freio de mão e meu braço esbarra no braço peludo do Ursão. Não sei se foi acidente. Pode ser distração, ainda sangue quente da discussão. Ele parece alheio, cantarola as músicas da playlist acústico "Marvin, agora é só você / E não vai adiantar / Chorar vai me fazer sofrer..." no semáforo meu braço roça novamente o peludão. Fico alerta, ele deixou o braço estendido ao longo do encosto de propósito! Agora estou incomodado com o urso me encarando. Devo ter cara de colmeia. Trânsito anda, destravo o freio de mão com cuidado para não encostar no braço do Urso. Ele para de cantarolar e fala sobre coisas diversas, não estou ouvindo. Estou indignado, seguro as próximas paradas na embreagem. Dirijo concentrado em não mais roçar meu braço no Urso Pimpão. Na ladeira não tem jeito, sinal fechado, é muito tempo para queimar embreagem, tomo cuidado para acionar o freio, consigo evitar contato com o braço peludo. O Pimpão está calado, eu estou calado, Titãs está sozinho no refrão "Marvin, a vida é prá valer / Eu fiz o meu melhor / E o seu destino eu sei de cor..." sinaleira abre, os carros a minha frente se movimentam, engato primeira e vou soltar freio de mão: "PU-TA-QUE-O-PA-RIU-CA-RA-LHO!" Esse sou eu gritando. A mão do Pimpão estava na manopla do freio de mão. Eu peguei na mão do urso! Até deixei o motor do carro morrer. Atrás de mim alguém buzina, eu estou soltando o verbo, furioso. Pimpão está encolhido contra a porta, não vou agredir, só estou ofendido, pedindo respeito. Ele pede desculpas. Não estou disposto a perdoar assédio. Encerro a corrida, ligo o motor e deixo de atrapalhar o trânsito, paro além da esquina e peço que desça. Desce calado. Eu acelero aborrecido. Paro em local seguro e faço relatório. O aplicativo diz que lamenta pelo comportamento inconveniente do passageiro, assegura que nunca mais receberei chamadas para atender o Ursão. É um alento! Se o Pimpão insistir em frear, ou ligar o pisca, ou trocar a marcha será com outro motorista.
TEM BALINHA?
A crise pega e começo dirigir com aplicativos, Uber, 99Pop e Cabify. Cada viagem é uma história, cada história dá uma crônica. Tem balinha? É a segunda pergunta que mais ouço nas viagens.
quinta-feira, 17 de maio de 2018
SUA CARTILHA TEM O A DE QUE COR?
"Bom dia Senhor Adalberto!" Simpatia é outro nível, passageira na calçada, ainda nem encostei direito e já cumprimenta falando o nome do motorista. Gosto disso! "Bom dia gentil passageira!" respondo sorridente, antevendo uma viagem agradável. Ela dá a volta, abre a porta atrás do carona: "Com licença, senhor Adalberto." Claro, pois não, o que é que eu posso fazer para deixar sua viagem mais agradável? Se é balinha não tenho aqui, se é água também não, mas com toda sua simpatia paro num posto de gasolina e compro até cafezinho... Não pergunto nem prometo nada, apenas confirmo o endereço de destino: "Vamos para a Brigadeiro?". Aqui em São Paulo não falamos 'Rua Tal' ou 'Avenida Fulana'. Dizemos o nome abreviado, de preferência, e todo mundo se entende. Temos duas Avenidas Brigadeiro qualquer coisa, mas a Avenida Brigadeiro Faria Lima é só Faria Lima e a Avenida Brigadeiro Luís Antônio é a Brigadeiro, quem é daqui não confunde! "Sim, por favor senhor Adalberto" e já pergunta a duração do percurso: "Quanto tempo previsto para chegarmos, senhor Adalberto?" o waze diz quarenta e seis minutos. Informo e ela agradece: "Obrigada, senhor Adalberto." Definitivamente tenho uma passageira educada dentro do meu carro, fico feliz. Ela se ocupa com algo no celular e eu com os zigue-zagues, valetas de esquinas e crateras de asfalto nas ruas dentro do bairro. Em minutos estamos na Politécnica, que qualquer paulistano sabe, é Avenida Escola Politécnica. Parado no semáforo eu busco a nota dessa gentil passageira, curiosidade. Três ponto sessenta e oito. Fico surpreso! Como assim? Tão gente boa com uma nota tão baixa? Não digo nada. O farol abre e ela comenta: "Está friozinho hoje, né senhor Adalberto?" Concordo, realmente estamos com temperatura agradável, dispensa ar condicionado. A gentil senhora desistiu do celular e puxa conversa: "Quanto tempo dirige uber, senhor Adalberto?" respondo e ela avança: "Tem outra ocupação, senhor Adalberto?" antes que eu responda ela emenda "meu cunhado é arquiteto e também dirige uber, sabia senhor Adalberto?" vou responder que não sabia, até abro a boca e começo a soltar o verbo, mas o ar é cortado: "essa crise pegou muita gente, né senhor Adalberto". Estou ficando cheio desse 'Senhor Adalberto' porém, ela ainda tem vários 'Senhor Adalberto' para soltar. As frases dela não terminam em ponto final, terminam em 'Senhor Adalberto'. "Ainda temos trinta e oito minutos de viagem, senhor Adalberto?" eu diria que sim, se ela me deixasse falar "Tudo bem, senhor Adalberto, eu saí mais cedo prevendo que o trânsito estaria mais carregado". Ufa! Uma frase que não terminou em 'Senhor Adalberto'. Nem tenho tempo de agradecer, ela emenda um assunto no outro. Estamos paralelos com a raia da USP, em cada metro avançado no trânsito eu ouço algo terminado em Senhor Adalberto: "Eu tenho CNH senhor Adalberto" acelero. "Meu marido não me deixa dirigir senhor Adalberto" paro. "Meu almoço terá mais carboidratos, senhor Adalberto" dou seta. "Esse muro de vidro ficou mais bonito, né senhor Adalberto" mudo de pista. "Ainda não assisti Vingadores, você já assistiu senhor Adalberto?" Estou irritado de tanto ouvir 'Senhor Adalberto'. Eu realmente não aguento mais ouvir falar em senhor Adalberto. Estou odiando o senhor Adalberto. Eu poderia matar esse senhor Adalberto! Ela parece amar dizer 'Senhor Adalberto'. O sorriso é o mesmo de quando disse "Bom dia senhor Adalberto" lá na calçada, mas eu já não recebo como gentileza. Ainda falta contornar a ponte Cidade Jardim, que ninguém conhece pelo nome e todo o Parque do Povo, que obviamente tem outro nome - mas ninguém sabe quem é o tal Mário Pimenta Camargo, ou subir a Cidade Jardim - que não é a ponte, a avenida realmente se chama Cidade Jardim. Trânsito travado em ambas as opções de rota, vou ouvir milhares de vezes 'Senhor Adalberto'. Até me conformo. Um motoqueiro passa buzinando, xinga o motorista do carro a frente, isso distrai a atenção da irritante senhora, aproveito e aumento o volume do som, quem sabe ela para de falar 'Senhor Adalberto'. Na playlist tem seleção de Marisa Monte, é um bálsamo auditivo! Após cinco minutos sem ouvir 'Senhor Adalberto' estou quase calmo. Começa outra canção "Ainda bem / Que agora encontrei você / Eu realmente não sei / O que eu fiz pra merecer / Você..." a gentil senhora bate três vezes no meu ombro para chamar minha atenção, pede que abaixe o volume, obedeço e ela recomeça: "Adoro essa música, senhor Adalberto". Eu surto: "Então vamos ouvir a música!" antes que ela diga novamente 'Senhor Adalberto' eu aumento o som. Exagerei no volume. Ela bate seis outras vezes no meu ombro, finjo urgências com manobras no trânsito, pode pedir que não vou baixar o som até chegar na Brigadeiro. Marisa monte deu lugar a outras vozes, nenhuma falou 'Senhor Adalberto' eu agradeço não ter meu nome na MPB. Não sou muso. Nem santo. Ignoro a passageira até chegar no destino. Finalizo a corrida sem baixar o volume, pela leitura labial ela insiste em agradecer e repetir 'Senhor Adalberto'. Faço sinal de jóinha e sorrio, ela finalmente desce. Estou odiando meu próprio nome quando avalio a passageira. Ganharia cinco estrelas, não fosse o fator Senhor Adalberto.
FAÇO HORA, VOU NA VALSA
Daí toca e vou lá... Bairro antigo, casas antigas, carros antigos, vizinhos antigos. Ali onde parece ser o endereço de origem uma pequena aglomeração de idosos. Encostei antes do tumulto e avisei: “estou aguardando em frente ao número tal”. Veio uma adolescente: "Você é o uber?" Sim, eu sou o uber, tem inclusive um adesivo no para-brisa dizendo que sou o uber, mas vai que a pessoa não sabe ler? "Sim, sou uber". Parece aflita: "Moço, eu e minha mãe vamos com você, minha vó vai com meu pai. Eles estão levando meu vô no hospital". Ela falando assim eu deveria entender o cenário inteiro e não ter mais perguntas, porém me habita um demônio da curiosidade. Ele fica dando saltos em minha mente: “pede detalhes, os detalhes sórdidos, pergunta” mando ele se aquietar e confiro o nome do usuário, ela responde: "É o meu pai... É que não vai caber todo mundo no nosso carro". OK, não vai caber todo mundo no carro, agora ficou tudo claro! ...o demônio dá saltos duplos carpados em minha mente... Distraio a curiosidade observando o tumulto, parece uma rave da terceira idade. A mocinha diz que vai buscar a mãe e volta para o meio da aglomeração. Desligo o motor. Um idoso abraça a adolescente, ela faz esforço para se desvencilhar, outra senhorinha acaricia seus cabelos, ela faz uma finta de corpo, mãos a assediam em direção ao portão. São carinhos de consolo, de apoio moral, de pêsames. Começo a reparar. Rostos chorosos. Olhos vermelhos. Semblantes abatidos. Não parece mais uma Rave de idosos. Continuo sondando o povaréu, todos velhinhos, marcando presença na desgraça alheia. Um senhorzinho tem cara de aliviado, talvez por saber que não será o próximo a virar saudade. Cada qual segura um celular, esperam a chance, se for o caso, de fazer selfie com o defunto da vez. Definitivamente alguém está nas últimas. A mocinha demora a voltar. Já deu cinco minutos, poderia cancelar só de maldade – às vezes sou mau. Não tenho coragem de sair, acelerar deixando os velhinhos estupefatos, me achando desalmado. Vai que rogam praga? Praga coletiva de idosos pega! Aguardo. De repente um dedo enrugado aponta para meu carro, todas as cabeças branca se viram em minha direção. Arrumo a postura, começo apensar que o coitado morreu. A adolescente volta correndo e pelo vidro semiaberto grita: "Moço, você pode ir até o portão? O carro do meu pai não está pegando". Ela realmente sabe se comunicar. Aceno com a cabeça e aciono o motor, avanço com cuidado para não atropelar antigos foliões. Eles vão subindo para a calçada comportadamente. Ouço conversas. Meu futuro passageiro sentiu uma batida mais rápida e mais forte no coração, alertou o genro, que alertou a esposa, que alertou a mãe, que alertou o bairro com seus berros de desespero. O burburinho abre caminho e vejo um idoso amparado por uma senhorinha e um homem. O velho não parece precisar de amparo. Tem uma latinha de cerveja na mão. Resmunga excesso de cuidados e entra sem dificuldades, senta atrás do carona. A senhorinha passa pela frente do carro, o rosto tem marcas de choro, senta atrás de mim, fala alto com o genro e com o velho. O genro vai até a garagem, pega algo no carro e volta. Ocupa o banco do carona. Pergunto se podemos seguir viagem, pede que espere a esposa, ela saí da casa com uma bolsa, espreme a senhorinha para o banco do meio, ambas conversam aflitas, cogitam tragédias. Mãe e filha. O velho é o cardíaco, está a caminho do hospital e o carro na garagem falhou. Eu era carro de apoio e passei a carro ambulância. A mocinha fica na calçada, alguns braços a amparam. Já não me parece tão aflita. Quando aciono o waze o velho pergunta: "Posso beber minha cerveja dentro do carro?" Penso em negar, mas na emoção do momento seria negar o último pedido de um moribundo. Não tenho coragem. "Pode, mas por favor não derrame". Levo um senhor esporro: "É cerveja! Eu nunca derramei cerveja na minha vida!" a voz está firme, não parece alguém em ataque cardíaco. Fosse da minha família eu não permitiria álcool nesta situação, está enfartando! Ou não? Começo a duvidar da sinceridade dessa morte anunciada. Sentimentos maus dançam entre minha mente e meu coração. Lá adiante uma lombada. Vou devagar, olho pelo retrovisor, quando o velho vai dar uma talagada eu acelero de leve, passo na lombada em velocidade além do recomendado, o carro dá um solavanco. Só vejo a boca fazendo bico, a lata subir, a baba descer e molhar a camisa. O velho pragueja alto, irado, as duas acodem. A filha oferece um pano, a velha oferece a vida, o genro não diz nada. Eu finjo que não é comigo, meus demônios sorriem. Sorte de todos que o hospital é perto.
O MEIO-CAMPO É LUGAR DOS CRAQUES
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Bairro tranquilo, ruas largas, começo de noite. Verifico a nota da passageira, quatro vírgula noventa e seis. Segurança moderada. Em frente ao endereço de origem um carro branco com placa vermelha. Passo devagar, sem parar, na garagem outro carro branco com placa vermelha. Sentido aranha formigando. Paro do outro lado da rua, deixo espaço para sair sem manobrar, qualquer treta posso incorporar o piloto de fuga. Pelo retrovisor vejo a moça abrir o portão, olha para a rua, procura o carro solicitado, acha meu o carro camuflado e avisa alguém dentro da casa. Um moço saí, entra no táxi e começa manobrar para a garagem. Outro homem sem camisa, barriga imensa, aparece atrás dela. Caminha em minha direção vestindo a camiseta regata que estava sobre os ombros, tem o emblema do timão. Taxista corintiano? É treta dupla. A barriga para ao meu lado, confirma meu nome, respondo o nome da solicitante: "Minha filha!" tem voz rouca de treta. Meu carro esta ligado, engato primeira, sem acelerar. O senhor Barriga apressa a moça. Ela apressa o rapaz que guardou o táxi. O rapaz apressa alguém que ainda não saiu pelo portão. Meus dedos até tremem no volante, deveria acelerar e deixar a gangue no vácuo. O rapaz dá um último aceno e a figura de uma senhorinha surge, franzina. Senhorinhas miúdas não combinam com treta, isso me acalma e desengato a marcha. Senhor Barriga abre a porta do carona, entra como se fosse um terremoto chacoalhando o carro. Os três passageiros menores ocupam o banco traseiro, a moça no meio, a senhorinha atrás do carona. Confirmo destino: "Arthur Alvin?" A voz rouca de treta responde: "Jogo do Corinthians, mano". O moço pode me agarrar pelo pescoço a qualquer momento. Minha carteira está no console, na frente do câmbio, mas imobilizado pelo pescoço não terei defesa alguma contra o Senhor Barriga. Olho para a senhorinha, franzina, quietinha ali atrás. Ela apazígua meus pensamentos... o dono da barriga diz que ele e o filho são taxistas, eu entendo como ameaça e fico quieto. O rapaz diz para pegar a Rodovia e a Jacu-Pêssego, completa: "esquece o aplicativo. Dez quilômetros a mais, porém muito mais rápido". Esqueço nada, deixo o waze recalculando a rota. Só computando o acúmulo de tempo e quilometragem. Tomara que a uber recalcule para fechar a conta! Na marginal do Tietê o moço quer saber como está a vida de uber: "Quanto tempo dirige uber? Quanta grana tira por dia? Carro próprio ou alugado? Paga prestação ou tá quitado?" eu vou respondendo e dirigindo. Na Ayrton Senna o senhor Barriga repete que é taxista faz trinta e poucos anos, eu entendo como reforço de ameaça e fico calado. Diz que é de boa, tem espaço para todos... dentro da minha cabeça ele está fingindo bandeira branca, a qualquer momento o filho vai me agarrar pelo pescoço. Busco a senhorinha com os olhos, ela observa pontos de luz no breu lá fora. A ameaça é o moço atrás de mim. O senhor Barriga diz que motorista de aplicativo é burro, que paga para trabalhar e isso 'fode' com os taxistas. 'Cara, você disse que é de boa... – só penso'. Ele continua desfilando argumentos contra a categoria 'pirata'. Lembro que os aplicativos foram regulamentados, senhor Barriga me ignora, diz que o prefeito Haddad foi conivente com a invasão desses 'bostas'. Percebe que agrediu e esclarece: "Bostas são os aplicativos, não os motoristas. Motoristas são uns coitados, uns mortos de fome tentando escapar da crise". Eu preferia ser chamado de bosta, fico ofendido com os mortos-de-fome: "Desculpe, mas eu não sou morto de fome". Sinto o braço do moço engravatando meu pescoço. Só imaginei. Ninguém faz ou diz nada. Silêncio no carro. Silêncio pesado. Nem o motor faz barulho. A moça está com fone de ouvidos. Alheia a todos. A cabeça do senhor barriga está virada para o meu lado, os dois olhos estão me observando, eu sinto. Tenho olhos fixos na pista nova da Rodovia, tenho pensamentos suicidas, se o moço grudar meu pescoço eu dou um jeito de capotar o carro. Vamos morrer todos! As faixas parecem recém-pintadas. Trânsito limpo. Asfalto limpo. Tudo limpo. Se for para morrer, que meu corpo fique estendido num asfalto novo... as idiotices mentais são interrompidas pela ordem firme, em timbre frágil de senhorinha: "Pede desculpas para o motorista!". O senhor barriga perdeu a voz rouca de treta, está com voz de choro: "Eu não quis ofender, desculpe mesmo..." vejo nos olhos dele, o constrangimento é verdadeiro e absoluto. Digo que está tudo bem. O silêncio volta, percebo que desacelerei, estou bem lento. "Se quiser me deixar aqui na rodovia vou entender..." fico surpreso, nem pensei nisso: "Eu não vou deixar ninguém na rodovia! Já te desculpei." Acelero lentamente, estou com pena do Senhor Barriga, parece boa pessoa, só fez repetir bordões. Vamos todos calados até perto do estádio. Não dá para chegar nem no metrô, descem na avenida, se misturam a horda de bárbaros que segue a pé rumo ao caixote branco. Eu tenho pressa em sair do tumulto, desligo o aplicativo. Pouco depois estou conferindo o lucro nessa corrida. Descontados combustível, investimento, desgaste, taxa do aplicativo, homem-hora... Paro de fazer contas. Deu fome.
UM TANTO QUANTO MÁSCULO
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Primeiro de maio, não sei por que inventei de trabalhar. É dia de trabalhador descansar... lembrei, boleto vencendo dia dois de maio. Dois rapazes em frente ao endereço de origem, um deles franzino, o outro bombadão que faz questão de exibir os músculos. OK, está calor. Justifica regata. Justifica bermuda. Justifica pose de Johnny Bravo. Desnecessário roupa toda coladinha como se fosse segunda pele. O franzino confirma nome e destino, parece chateado com alguma coisa, evita frases, usa onomatopeias para responder ao bombado que fica puxando assunto. Ar ligado, cidade vazia, trânsito livre, mamonas assassinas no rádio. Após umas dez frases começando com "Cara..." o franzino reclama em alto e bom som: "Odeio quando você me chama de cara". O bombado provoca: "Qual é cara, sempre te chamei de cara!" o outro retruca que nunca gostou. Começam a discutir baixinho, fim das onomatopeias. Rolando frases completas. Parece que exibicionismo gratuito machuca. O outro parou de dizer "cara" mas mantém certo deboche. A discussão avança, está rolando uma DR no banco traseiro. Mamonas assassinas não ajuda: "Um tanto quanto másculo, ai com M maiúsculo, vejam só os meus músculos, que com amor cultivei..." Desligo o rádio, não quero piorar a situação. Sem música ambiente a voz do bombadão parece mais grossa, mais intimidadora, o franzino não recua, argumenta ciúmes, desenterra situações, descarrega tristezas. O outro debocha cada mágoa verbalizada. A tensão aumenta, o schwarzenegger do agreste tenta ter razão no grito, acha que ganha a discussão com ameaças. A expressão 'porrada na cara' me faz frear. Encosto e aviso: "No meu carro só eu dou porrada na cara". Os dois ficam calados, pergunto se posso continuar a viagem, o franzino sabe que não é com ele, repito a pergunta olhando pelo retrovisor. Não dá para ver a cara do bombado, se ele engrossar estou ferrado, vai me enfiar a mão na cara, vai fazer eu engolir minha audácia e alguns dentes. Isso se eu não voar pelo para-brisa. Não demonstro medo, sei que sou idiota, mas agora não posso vacilar. Viro o corpo, mantenho o cenho franzido, seguro o tranco e encaro o bombado sem piscar. Minha cara de mau dá certo, tenho anuência para continuar. Vamos calados o resto da viagem. Entrego a dupla, dou três estrelas pelo mini-barraco. Procuro uma vaga, estaciono e fico esperando tocar chamada. Quinze minutos depois ainda estou parado, o dia está fraco. Final de feriadão longe de aeroporto e rodoviária não rende. Resolvo comer um salgadinho no boteco da esquina, desço, na TV é começo de futebol, fico por ali mastigando esfiha salgada. Intervalo. Dá sede, a boca pede um chopp, peço um suco de laranja, lá se vai todo o lucro do dia. Fim de jogo. Volto para o carro, ligo o aplicativo e pouco depois toca. Vou lá buscar o passageiro. Uma volta no quarteirão, dou seta para encostar no endereço de origem, avisto o bombadão com mochila e mala. No rádio mamonas faz graça: "Oh, Manoel, olha cá como eu estou, tu não imaginas como eu estou sofrendo..." Minha audácia tem limite! Aborto a parada, acelero e passo direto. Na esquina cancelo sem cobrar do usuário.
NA TARDE DE UM DOMINGO AZUL
Daí não toca e eu fico lá parado, sombra frondosa, parque municipal. A lei pediu, a Uber forneceu, eu retirei o adesivo no local e hora agendados e colei no para-brisa. Em áreas sem risco, porque em áreas de risco removo e guardo no porta-luvas. No entorno do parque é seguro, pessoas passeiam com seus totós, crianças pedalam, ralam joelhos, choram, riem, pedem água, salgadinho, pastel, pipoca, doce. Adolescentes marcaram rolezinho, exibem patins, crueldades, skates, crushes. Adultos pedalam, correm, andam, se arrastam como aquela gordinha... Ela veste malhas fitness coloridas que destoam entre si. Blusa verde limão, calça preta e laranja, fita de cabelo roxa, meias brancas e tênis rosa. É uma alegoria completada pelas bochechas vermelhas, a fronte suada, o ar ofegante e a audácia de enfiar a garrafinha sem água pelo meu vidro abaixado. Apoia cotovelos na porta, respira com dificuldade, apenas aponta o adesivo no para-brisa e pergunta se sou uber. Transpira, ofega, parece que vai desmaiar e não tira os olhos de mim aguardando resposta, confirmo que sim, sou uber. "Pode me levar para casa?" os olhos imploram, a linguagem corporal implora, eu fico alerta. Digo que não devo transportar passageiros fora do aplicativo. Sei lá, pode ser cilada. "Moça, o poder público está louco para encontrar bode, não tenho vocação para expiatório". Ela diz que não é fiscal de porra nenhuma, assim mesmo, blasfemando contra as autoridades constituídas. Fico olhando com pena, claro que vou ceder, mas preciso fazer charme. Ela pede por favor, indústria da multa é igual bandido, não pede por favor. "Estou sem celular. Maldita hora que resolvi correr". Praguejando assim, quem sou eu para negar carona. Pergunto o endereço, coloco no waze, é perto. Vamos lá. Desligo o aplicativo. Ela se joga no banco do carona. Pergunta se posso ligar o ar. Claro! Sol ardido fora da sombra frondosa, nem eu que deveria economizar enfrento esse calor sem ar ligado. Fecho os vidros. O ar frio ventila em velocidade máxima, a gordinha parece que recebe oxigênio puro, respira fundo, nos primeiros quinhentos metros as bochechas vão ficando rosadas, o suor na testa vai rareando, a respiração profunda vai amenizando, menos de um quilometro ela já sorri. Me chama de anjo, diz que é uma imbecil por cair na pilha de amigas: "Eu sempre fui gordinha, sempre me aceitei com uns quilinhos a mais, nunca me incomodei com as piadinhas, mas por causa de um 'homão-da-porra' que não está nem aí para mim entrei na pilha de emagrecer. Aluguei neurose das amigas. Burra! Que idiota eu sou!" parece realmente enfurecida consigo mesma. Não comento, em tempos de politicamente correto, boca fechada não compromete. Ela fecha os olhos, penso que vai chorar, se chorar choro junto. Sou solidário nessas coisas de lágrimas femininas, não posso ver mulher chorando que vou junto, abro as torneiras. Ela não chora, começa rir. Rir pode! "Eu tenho passado fome! Sabe o que é passar fome por um crush?" Eu rio com discrição, não deve ser engraçado nem para ela. "Fome..." Se perde nos pensamentos até chegarmos ao endereço final: "Moço, quanto você vai me cobrar?" eu não sou de explorar, mas enfio a faca: "Dez reais está bom?" ela diz que está ótimo, tira uma minúscula bolsinha não sei de onde, estende a nota e repete inúmeras vezes obrigado. Quando penso que vai descer ela pede: "Posso ficar mais dois minutinhos curtindo esse ar?" pode. Estamos na sombra do prédio, ali adiante sol ardido. Ligo o aplicativo, sem combinar fica subentendido que se tocar ela desce e eu vou lá buscar passageiro. Agradece, fecha os olhos, acho que só precisa se hidratar, tenho uma garrafinha de água intacta, ofereço e ela aceita. Devora os quinhentos emeéles numa talagada. Pergunta quanto é a água, digo que é cortesia – estou com remorso pelos dez reais, no aplicativo a corrida seria taxa mínima. Olha uns segundos para mim, não sei o que pensa, eu sei dos meus pensamentos, acho que é bonita, não digo nada, nem ela. Subitamente abre a porta, agradece e sai. Se tivesse que pontuar, daria cinco estrelas, apesar da mancha de suor no assento e no encosto do banco... O jeito é pegar pano e limpador no porta-malas. Não era cilada.
SÓ FALA QUANDO EU MANDAR
Daí toca e vou lá buscar o passageiro, final de tarde, trânsito moderado. Encosto no endereço de origem, prédio comercial, a mulher sai falando ao telefone, abre a porta sem confirmar a placa do carro. Entra sem confirmar meu nome. Joga bolsa, pastas e uma sacola no banco atrás de mim. Bate a porta com mais força que o necessário. Continua ao celular, olho pelo retrovisor e espero a chance de confirmar nome e destino. Ela percebe que estou parado, faz uma pausa, confirmo nome e destino mostrados pelo aplicativo, a rua é um passarinho conhecido na zona sul, mas o Waze diz para pegar o rumo da zona oeste. Waze é aplicativo de rotas, conhece os meandros da capital como ninguém. Mesmo assim eu insisto com a passageira: "Vamos pela Marginal Pinheiros sentido Rodovia Castelo Branco?" ela responde afirmativamente com um aceno. Então existe outra Rouxinol em São Paulo? Desço a avenida em direção a marginal, a mulher recebe uma ligação após a outra, não para. O trânsito para sob e sobre a ponte. No arco da ponte o reflexo do céu avermelhado colore também o rio. Sol posto por detrás dos morros, o trafego está mais lento que a rotação da terra. No rádio o volume está tão baixo que mal decifro Avohai: “Neblina turva e brilhante/ Em meu cérebro coágulos de sol/ Amanita matutina/ E que transparente cortina/ Ao meu redor”. Atrás de mim as ligações e conversas protocolares em volume moderado, não param. Faço o contorno da ponte, o caminho está livre, passo ao lado da comunidade com vistas para o rio, o waze manda e eu entro na comunidade. A rua é estreita, no sentido oposto um carro pisca os faróis pedindo passagem. Eu paro. O carro a minha frente para. Não temos como passar, opto por retornar. A mulher atrás de mim segura o telefone no ar, pergunta onde estamos, o waze marca e eu informo: "Estamos a dois minutos para o fim da viagem". Ela faz cara de estranhamento. Atrás de mim outro carro buzina, estou entalado na rua, a passageira altera a voz: "você me trouxe para a favela!" olha para fora através do vidro, parece apavorada. Avisa que vai descer. As silhuetas encostadas no muro se movimentam. "Por favor senhora, não desça!" Ela altera a voz já em desespero: "É um sequestro!" eu percebo que o waze colocou a rota mais imbecil para chegar no passarinho da zona oeste: "Moça, por favor se acalme, eu vou te levar com segurança até seu endereço" ela senta no meio do banco traseiro, agarra a bolsa, puxa as pastas, abraça a sacola e repete que vai descer: "Por favor, não desça. Apenas se acalme." O efeito é contrário: "SOCORRO!". Sim ela grita por socorro dentro do meu carro com os vidros fechados. "Moça, fique calma..." ela avisa como se fosse ameaça: "Estou ligando para meu marido!". O carro atrás de mim buzina, o da frente faz sinais com o farol alto. As sombras encostadas ao muro se foram, a descontrolada da periferia grita ao telefone: "ESTOU SENDO SEQUESTRADA!". Eu deveria ficar irritado. "ESTOU PRESA DENTRO DO UBER NO MEIO DA FAVELA", eu peço calma, ela grita pela milésima nona vez que vai descer, eu peço que não desça pela milésima oitava vez. Tento retomar o controle da situação: "Moça, deixa eu falar com seu marido"... fode... "ELE QUER TOMAR MEU TELEFONE!!" ela se encolhe no banco traseiro, bolsa, pastas e sacola espremidas contra o corpo, expressa terror nos olhos. Eu peço que coloque no viva-voz "EU VOU DESCER!!". O carro a minha frente decide retornar, eu avanço uns metros, o carro atrás de mim ainda buzina. Ouço o marido pedindo print da viagem, por algum milagre Divino, mesmo desesperada ela acionou o viva-voz. "Foi uma rota infeliz do waze" falo alto para o marido ouvir. Ela ecoa para o marido ouvir "EU VOU DESCER!". Tenta abrir a porta e eu peço com calma porém firme: "Moça, por favor, não desce que estamos saindo da favela". A voz masculina pede calma pela vigésima vez, a desesperada grita para o telefone que está sendo raptada e eu ouço a voz masculina gritar de volta: "CALA SUA BOCA E ME ESCUTA!"... Pela primeira vez desde que começou o inferno eu vejo o demônio estático. Os olhos arregalados, a boca arregalada, a mão que segura o celular imóvel. Até os fios de cabelos estão parados no ar. O silêncio absoluto, ouço o Zé Ramalho: “Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei/ E se eu calei foi de tristeza/ Você cala por calar”. A voz mansa do marido corta a música: "Amor da minha vida, se fosse um sequestro esse coitado não estaria pedindo por favor". Demora alguns segundos para ela sair do torpor: "Não?" a voz calma responde do outro lado: "Já viu bandido pedir POR FAVOR?" ele dá ênfase ao POR FAVOR. A mulher olha para mim como se me visse pela primeira vez. Tira uns fios desgrenhados da frente dos olhos, aproveito para confirmar - voz alta para o marido também ouvir: "Não senhora, não é sequestro, não quero que a senhora desça! Fique tranquila que estamos a menos de trezentos metros de sua casa, o waze deu um caminho complicado, só isso". Ela solta a bolsa no banco, solta as pastas, solta a sacola, solta os ombros, solta o pavor dos olhos. Olha em volta, as silhuetas sombrias sumiram ficaram lá atrás, junto com o muro. Já saímos da rua estreita, mas ainda tem cara de comunidade. Ela diz que não reconhece a região. Entro na rua do passarinho, ela diz que não é a rua dela. Peço que confira o endereço no aplicativo. Começo a xingar mentalmente, a desgraça do passarinho deve ser mesmo aquele de Moema. Ela admite que digitou endereço errado ao pedir carro, seu destino não é o passarinho no Jaguaré. Mas também não é em Moema. Tem um terceiro Rouxinol em Osasco, Vila Ayrosa. Mais oito quilômetros, segundo o Waze. Por sete quilômetros ela vai se desculpando, eu digo todas as vezes que está tudo bem. Quando entro na rua Rouxinol correta a mulher está calada. Encosto em frente ao seu endereço, finalizo a viagem no aplicativo, ela não abre a porta após o meu cordial "tenha uma boa noite". Viro o corpo para ver o que acontece, ela está ausente, através do vidro fixa os olhos na casa a sua frente: "Moço, meu marido nunca tinha gritado comigo". Não sei o que dizer. Ela se desculpa pela centésima quarta vez e desce. Espero a passageira sumir pelo portão e dou cinco estrelas. Avaliação máxima! Não merece, mas sei lá... Zé Ramalho canta Chão de Giz.
ONDE EU POSSA FICAR NO TAMANHO DA PAZ
Daí o relógio marca vinte e três horas e muitos minutos, estou na Vila Madalena, decido encerrar o expediente e faço o direcionamento de viagens, está gravado o endereço de casa, vou receber apenas chamadas em direção ao meu lar doce lar. Passa da meia-noite quando toca, vou lá buscar a passageira, no local de origem um bistrô. Três mulheres na calçada, encosto ao lado, nem se mexem. Aguardo uns segundos antes de abaixar o vidro e perguntar se estão aguardando Uber. Sim, estão. "Fulana?" sim, é a fulana, voz pastosa, gestual lento, bêbada com moderação. Abre a porta, entram as três no banco de trás. Confirmo endereço destino, a voz de cana avisa que cada uma vai para um lugar diferente. "Fudeu" – penso. Pergunto qual endereço da primeira, ela também tem voz de cana, mudo no waze, considero que seria desgaste inútil querer mudar no aplicativo. Só um quilômetro a frente "Desfudeu"- penso com alguma felicidade. Basta virar a terceira e seguir linha reta por mais setecentos metros, chegamos, a primeira agradece, sons de beijinhos, risadinhas, as duas vozes de cana falam ao mesmo tempo: "Precisamos nos ver mais vezes". "Precisamos nos ver e beber". "Precisamos encher a cara". "Vamos beber todas...". "Eu tô doidona". Riem. "Moças, vocês já beberam todas – só penso". Eu penso muito. Finalmente desce, bate a porta, tropeça, não cai, fica parada em frente ao portão. Eu sempre aguardo entrar - tenho essas delicadezas. Peço o segundo endereço. A terceira que até então estava calada, continua calada, não consegue dizer para onde vai. Lá fora a primeira que desceu ainda faz confusão com as chaves, demora, pergunto se precisa de ajuda, recusa com um gesto, tenta novamente e consegue abrir. Dentro do carro, após minutos de indecisão e apreensão, a voz de cana decide: "ela vai dormir lá em casa!". A caladinha concorda, a voz de cana completa: "Vai dormir igual um anjinho por causa do vinho". Ri a caladinha ri também e fecha os olhos. Encerro a questão. É rumo de casa! Dirijo e a voz de uva – foi promovida, pergunta: "Moço, você é solteiro?". Moço sou eu. "Sou casado". A voz de uva insiste: "Sua mulher não acha ruim você dirigindo a noite?" Tenho resposta pronta: "Minha mulher só acha ruim encontrar boleto vencido na caixa de contas a pagar". Ela não ri. Considero que o recado está dado ou não compreendeu. Meio quilômetro adiante começa a rir, repete: "Sua mulher só acha ruim encontrar boleto vencido". Demorou para entender a piada. Rio dela rir atrasado. Ela acha que estou rindo com ela e começa gargalhar, a caladinha abre os olhos, percebe que só ela não está rindo de algo e começa rir também. Eu acho mais engraçado e deixo escapar uma gargalhada, vira uma bola de neve risonha, quanto mais riem, mais rio também. Isso porque a piada nem é tão engraçada - penso e paro de rir. Estão bêbadas. A caladinha para de rir e lembra o endereço da casa dela, grita o nome da rua e o número apontando para meu celular, decerto acha que o aplicativo vai ouvir e mudar a rota. A voz de uva descarta mudar a rota: "Você vai dormir na minha casa". A caladinha concorda e volta a fechar os olhos. A voz de uva, comenta olhando para mim através do retrovisor: "Eu nem queria dormir... mas enfim". Eu só dirijo. Paro em frente ao endereço na Pompéia, a caladinha acorda com um cutucão, desce e fica em pé ao lado do carro, tentando reconhecer o território. A voz de uva está menos pastosa, agradece colocando a mão no meu ombro: "Você é um homem correto, muito obrigada. Outro qualquer poderia se aproveitar da situação". Não sei direito se é a última insinuação ou é sinceridade. Não comento. Ela desce, dou cinco estrelas e desligo o aplicativo. Fico com pena, tinha amargura fermentando o bafo de uva. O porteiro sorridente destrava o acesso, fico olhando elas entrarem, ele solícito, cercando como quem escolhe o frango para a canja. Dou uma buzinada, só um toque, leve, ele se vira e dá de cara com meu cenho franzido. Murcha o sorriso. Muda a postura. Deixa que sigam sozinhas para o elevador. Retoma seu posto. Giro o volante pensando Drummond; Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Pego o rumo de casa.
TODOS ACREDITAM NO FUTURO DA NAÇÃO
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Porta de galpão industrial, zona norte, dois barbudos, um com celular na mão, o outro uma mochila-maleta de rodinhas. Cara de sindicalistas a caminho de alguma confusão. Indo, porque se estivessem voltando de confusão as caras estariam com hematomas, ou os sovacos com pizzas de suor, ou não teria mais nenhuma maleta de rodinhas. Tenho um lado meio Sherlock, obrigado. E antes que alguém me chame de tucano ou bolsominion, aviso que minha ideologia é de esquerda. Posso criticar com isenção. Os sindicalistas falaram de Lula preso, falaram de cachaça, falaram de dinheiro, falaram de liberdade, falaram de opressão, falaram de política, falaram novamente em dinheiro, falaram em impunidade, falaram em direitos, falaram em liberdade de expressão (só para eles), a cada asneira que vomitavam pediam minha opinião. Queriam a todo custo minha anuência e cumplicidade, eu respondia com onomatopeias: "ôbixoburro" ou "tomanucu" ou "issaí"... porque eu sou driver da paz! Decididamente estavam a caminho de confusão. "Quanto de dinheiro cabe na maletinha?" De ilação a incômodo a onomatopeia, a corrida até que foi rápida, durou uns dez minutos. Endereço final em frente outro galpão, portão de aço fechado, clube da luta - pensei. Quem leva maleta de rodinhas a um clube da luta? Antes que eu encerrasse o sem maleta perguntou as condições de trabalho via aplicativo. Eu querendo fechar a conta e acelerar, disse distraidamente que não existe relação de trabalho: "sou prestador de serviços e a uber só faz a ponte com o usuário"... pra quê? "Ó-Meu-Deus! Por que Tú me permitiste pronunciar mais que as onomatopeias da salvação?" Os sindicalistas foram possuídos! Quiseram saber como poderiam ajudar a categoria dos drivers, orientei: "No facebook, entre no Grupo Uber Da Depressão". Encerrei a corrida, agradeci pela oportunidade, ignoraram, veio convite para fazer parte da diretoria do sindicato, sugeri: "No facebook, entre no Grupo UDD e convide os administradores". Agradeci pela vigésima vez e cliquei nas cinco estrelinhas, pediram para eu anotasse o endereço do sindicato. "Estou sem caneta, no facebook, entre no Grupo UDD e deixe convite aberto, são milhares de membros". Os quatro olhinhos brilharam quando falei milhares de membros. "Ó-Meu-Deus! Por que Tu não me devolves as onomatopeias da salvação?". Um deles estava descendo, parou, ficou segurando a porta. O outro fez que ia descer também, abriu a porta atrás de mim, deixou a perna pra fora, a maletinha no colo, a mão no encosto do meu banco, desfilou a série de vantagens na sindicalização. Bordões batidos, união faz a força, juntos somos mais, trabalho de formiguinhas, unidos venceremos, fora Temer, Lula lá. Mentalmente eu rebatendo cada bordão, união faz açúcar, juntos somos imbecis, formigas não têm salários, unidos levaremos balas de borrachas, fora Temer, Lula continue lá... lá na cadeia. A cada bordão eu verbalizava "Grato, tenha uma boa tarde" menos no Fora Temer, aí eu verbalizei Fora Temer também. Após agradecer duzentas vezes, expliquei a apatia culpando meu 'espírito guerreiro' que foi domado nos anos de chumbo. Olharam consternados o meu jeitão de coxinha – na hora fiz cara de coxinha. Arrematei assumindo que nestes anos todos só me permiti protestar virtualmente, e foi uma única vez, contra o Collor. Fiz cara de Fora-Collor. Olharam com pena e soltaram minha porta. O portão de aço abriu sem que batessem. Sinistro. Desmarquei as cinco estrelinhas. Dei duas estrelas porque estavam em dois, uma pra cada um – pra não virar briga. Encerrei de vez. Estava exausto, duas pizzas nos sovacos. Só faltavam os hematomas na cara.
NUM DESSES ENCONTROS CASUAIS
Daí não toca, então não tenho passageiro para buscar. Encontro uma vaga em rua de bairro e fico parado, economizando combustível, gastando dados no facebook, gastando sabedoria com um blá blá blá... Não é a toa que o grupo é Uber da Depressão! Que outro grupo acomoda passageiros uber, motoristas uber, taxistas uber, esposas de motoristas uber, haters uber e até espiões da uber? Sim, acredito que tem gente sondando comportamento da geral. Eu, se fosse bambambam da Uber, faria espionagem em grupo virtual com mais de sessenta mil integrantes! Nos desabafos, bafos e farolagem periga sobrar algo proveitoso. Enfim, fica o alerta-paranoia aos motoristas colegas, publiquem com moderação. Reclamações embasadas. Depois é bloqueado no aplicativo e fica sem saber onde foi que errou... foi o espião! Daí estou pensando esse monte de asneiras quando toca. Passageira a oitocentos metros de distância. Ligo o carro, dou seta, vou saindo e percebo que o endereço de origem é a rua que estou estacionado. Numeração uns metros atrás, eu teria que dar a volta, rua de mão única. Dou uma sondada, ninguém na rua. Aciono a ré até o portão do edifício. Numeração confere. Sai um rapaz, entra, eu confirmo o nome da moça, ele fica surpreso e diz o próprio nome, informo que a chamada é para fulana, ele pede desculpas, entrou no carro errado. Duas moças tentam abrir a porta, o moço desembarca e elas ficam confusas, recuam até o portão. Outro carro para logo atrás do meu, o moço confere a placa e vai. As moças ficam olhando, ainda confusas, abaixo o vidro, digo o nome da solicitante, ela confirma e as duas entram no meu Renault da sorte. Perguntam se o moço entrou no carro errado, confirmo, riem, comentam que é bonitão, informo que saiu do mesmo prédio que elas, se animam em ter vizinho 'homão da porra', fazem piadinha, entro no clima e digo que sei o nome dele, se interessam, estão animadinhas, pergunto o que ganho com a informação - só descontração viu espião, prometem cinco estrelas, negocio um comentário top. Concordam, digo o nome, agradecem, sonham encontros no elevador, eu dou asas e elas voam. Viagem divertida como todas deveriam ser. Quase lamento encerrar ao chegar, enfim é destino, encerro com cinco estrelas. Elogiam, agradecem e vão. Faz três dias isso, nenhum comentário novo no meu perfil, desconfio que a moça esqueceu também as cinco estrelas. Se tem espião da uber no grupo estou lascado.
PASSA O DIA NO TRAMPO PAU A PAU
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Uma tarde qualquer, centro de convenções, saída de algum evento empresarial, vários engravatados com celulares conferindo placas de carros, eu chego conferindo rostos, não adianta nada, eu sei, mas quem sabe o passageiro de agora é aquela moça bonita ali? Ela confere a placa do meu carro, olha para minha cara, desvia os olhos para o carro seguinte, confere placa... meu Renault quatro portas não é o carro da sorte. Uma senhora de terninho agita o celular lá na frente, ao lado mala de viagens rosa, rodinhas, sim ela acena o celular para mim. Vou até ela e meu carro é invadido por quatro executivos, cada qual com sua malinha de rodinhas acomodada no porta-malas. O destino é a Berrini. Durante o trajeto música desligada, ar condicionado em potência moderada. Pelo retrovisor vejo duas jovens, bonitas, meu Renault dá sorte sim! No banco atrás de mim a mulher fala, critica, recomenda, instrui, faz avaliação dura do evento que participaram. Os três jovens ouvem, ponderam, justificam, acatam, anotam. Ao meu lado o jovem executivo com cara de quem puxa tapetes, no momento é subalterno. A mulher é a chefona! Desembaraçada, poderosa, pontual em cada questão. Eles são aprendizes, acabaram de sair da faculdade, da pós, MBA, intercâmbio essas coisas... muitos termos em inglês, vários verbetes profiláticos - no sentido de cautela com o que diz. Eu só ouço, chego a ter pena deles nas tréplicas da chefona. Coração peludo! Aviso o término da viagem, ainda fazem considerações sobre o evento, não decidiram se gostaram ou se detestaram. A chefona decide que gostaram com ressalvas. Concordam! É o que vão dizer na empresa. Deve ser assim que vão decidir minhas estrelas, no elevador. Libero as malas. Dou quatro estrelas por instinto. Sigo a vida. Outro dia, outra manhã, daí toca e vou lá buscar passageiro, estou no quilometro avançado da rodovia, segunda corrida do dia, a primeira trouxe um moço na transportadora, entro no bairro, área de risco, conjunto de sobradinhos populares enfileirados até o final da ladeira, vou com cautela, qualquer suspeita acelero e cancelo a chamada. No penúltimo sobrado o portão abre e saí uma senhora de terninho, tem uma mala de viagens rosa, rodinhas, sim ela acena o celular para mim. Reconheço a chefona ela, obviamente não vai se lembrar, recusa o porta-malas, comenta sobre tão cedo e já tão calor, elogia a temperatura interna, elogia eu ter chegado rápido, elogia o conforto, elogia o couro do banco, elogia eu dirigir com segurança, discorre sobre a netinha, sobre os gatos, sobre a vida, o universo e tudo mais. Coração de morango com calda de chocolate. Na Berrini abre a porta, me deseja um ótimo dia e desce. Fico parado e vejo a mulher ajustando o terninho, percebo o rosto endurecer, as rugas marcarem o canto dos olhos, os lábios se tornarem um risco. As costas ficam retas. Até visualizo a calda de chocolate se esvaindo, os pelos duros brotando e sufocando o morango. A chefona entra pisando firme. De alguma forma sinto pena, mas ao mesmo tempo respeito. Saio lentamente, dou cinco estrelas e lamento ter dado só quatro estrelas no outro dia.
terça-feira, 15 de maio de 2018
PORQUE EU SOU É HOMEM
Daí toca e vou lá buscar o passageiro, está no quarteirão de baixo. Novamente uber, novamente pool, novamente perturbação e depressão. Chácara Santo Antônio, casarões, rua vazia, na porta uma guarita de segurança entre grandes árvores e muito verde. O sujeito é jovem, bêbado ou drogado, a fala e o riso uma oitava acima. Antes de confirmar o destino toca segundo passageiro, vou. Sábado de aleluia, ô glória, distante só dois quarteirões. É mulher. Outro casarão, outro muro de seis metros de altura com várias câmeras de monitoramento. Portão abre, uma adolescente sai, nem acionei viagem e o portão abre novamente. Mulher alta, magra, bonita. Olha para mim como se decorasse meus traços para um futuro retrato-falado, na polícia. Percebe o rapaz no banco de trás, abaixa o corpo, olha fixamente e pergunta: "tem dois homens no carro?". A mocinha já abriu a porta, olha e confirma que sim, tem outro passageiro no banco de trás. A mulher tem um instante de indecisão, parece que não compreende. A confusão mental dura somente alguns instantes, ela puxa o braço da moça: “você não vai entrar neste carro!” Eu só dirijo, não tenho que reagir a nada que aconteça fora do meu carro, a adolescente sim, reage: "Mããeee!! É carro compartilhado, é normal." Pode ser normal na cabeça jovem, na cabeça adulta é anormal: "Filha você não vai entrar num carro com dois homens desconhecidos". O bêbado abaixa o vidro e participa da conversa: "Dona, é uber pool, de boas, eu vou para o mesmo rumo que sua filha" ele ri após a frase. "Dois homens!" – a mulher dá ênfase aos dois homens e repete: "DOIS HOMENS!!" Se o problema é o excesso de macho, o drogado ri e aponta para mim: "ele não é homem, é só motorista do uber." Estou aqui para dirigir, não tenho que provar minha masculinidade a ninguém, fico quieto. A mulher olha para meu rosto, já decorou os traços, mas não vai se arriscar no retrato-falado: "moço, pode ir embora, minha filha não vai com vocês" - "MÃÃEEE!!!" - "Cancela esse negócio que eu vou te levar!" Chamar meu trabalho de ‘esse negócio’ até poderia ofender, mas eu sou só motorista de Uber. “E então?” pergunto aguardando uma atitude da mocinha. Ela não tem opção, fisionomia de quem está morta de vergonha alheia, fecha a porta e cancela. Ganhei a taxa de cancelamento. A mulher empurra a filha, faz barreira com o corpo para entrar na casa. O bêbado gargalha joelhando o banco do carona. Dou seta e saio. O drogado não para de dar tapas no encosto do banco. Uma vontade de malhar esse Judas, a frase reverberando na mente "ele não é homem" meu porta-malas cabe até três corpos "é só motorista do uber" desacelero, encosto e aviso: "se não se comportar vai sobrar pra você". Ele sossega, eu desativo novas solicitações e dirijo. Só motorista.
ACREDITO É NA RAPAZIADA
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Tudo normal, nenhum evento digno de crônica, dou cinco estrelas porque não pediu água, nem balinha, não reclamou dos vidros abertos, cantarolou 'pais e filhos' com o Renato Russo, deu boa noite, não bateu a porta. Beirada de periferia, rua torta, melhor desligar o aplicativo. Estou com o dedão na tela do celular quando a cara feia invade o carro pelo meu vidro aberto, o coração dispara, a respiração para, os pensamentos embolam e sinto o bafo da fera tabelando no meu rosto: "você é uber?" penso em acelerar feito Dominic Toretto, mas respondo feito Nerso da Capitinga: "Sou né?" A porta atrás de mim abre e fecha. O tal entrou e manda seguir em frente. Eu deveria retornar, pergunto se é assalto: "tenho cara de vagabundo?" tem sim, mas não sou besta de responder, fico calado. "TENHO CARA DE VAGABUNDO?" perguntando assim, enfiando a cara entre os bancos e incomodando meu tímpano direito, sou obrigado a responder: "Não senhor." O bafo tabela na minha orelha: "Sou traficante rapaz!" diz isso como se fosse melhorar minha noite. "Meu celular, só paguei oito das vinte parcelas" - penso, não falo nada. Fui roubado duas vezes só esse ano. No começo do ano levaram o primeiro celular, ainda me deram uns 'pedala-robinho'. Comprei outro aparelho em várias parcelas, dois meses depois fui roubado novamente, fiquei sem celular outra vez. Fiz outro parcelamento e comprei novo celular! Só tenho feito para pagar celular, dois carnês de prestações. Mas no momento o bem material deixa de ser importante, que levem o terceiro celular! Meus pensamentos encenam grandes tragédias, em todas elas termino estirado em alguma viela do morro. "hastag-tio-te-ama, olha isso Deus! Nem vou ver meu sobrinho crescer? Abençoa Jesus, minha mãe vive me pedindo neto. Preciso mesmo fazer um filho, estou ficando velho, apareceu um chumaço grisalho no topete, estilo Bonner. Se eu sair dessa vou dar um primo pro meu sobrinho, prometo! Nem ligo pro celular, nem ligo em pagar três carnês, nem ligo se meu time for rebaixado outra vez, nem ligo se colocarem uva-passa no arroz de natal, nem ligo, Jesus, nem ligo..." o traficante manda virar ali, subir aqui, é um waze de favela ambulante. Manda parar, paro. O traficante desce, deixa a porta aberta, encosta do meu lado e espera duas figuras que se aproximam, cada qual um trabuco nas mãos, não sou especialista em AR15, M16, AK47, para mim são canhões! “É agora que aparece a luz branca me chamando... será que eu vou pro céu?” coração bate duas vezes por minuto, respiração parou faz tempo. O meu algoz entrega um pacote para a dupla, jogo rápido, se despede: "dá um salve pros irmão". Obedeço, digo "Salve!" os três se viram e ficam me olhando como se eu fosse um ET. Percebo que paguei mico, o traficante não falou comigo. "acabei de pagar o último mico de minha vida" - penso. Ninguém ri. Voltam aos gestos de despedidas, o que não-tem-cara-de-vagabundo entra e manda eu voltar. Digo que não lembro o caminho, me chama de Zé-Ruela e incorpora o waze de favela. Retornamos a rua torta. Manda parar eu paro. Paro e volto a travar orifícios. Volto a lamentar o celular com prestações a pagar. Volto a orar abrindo mão do campeonato. Volto a hastag-tio-te-ama. Volto a promessa de comer arroz com passas. Volto a orar Meu-Deus-Só-Me-Tire-Daqui. A porta traseira abre, sinto um joelho forçando no meu encosto, tensão a mil, ele desce e bate a porta. Pelo vidro aberto estende uma nota de dez reais. Penso em recusar, "vai achar que estou desdenhando" pego. Penso em agradecer "bem que podia ser uma nota de cinquenta reais" fico calado. Ele ordena: "VAZA!" dou seta "Se não tivesse travado vazava" - só penso. Já que dei seta, seria bom acelerar lentamente sem demonstrar pavor, mas os pneus queimam... eu desisto da pose, eu erro a marcha, eu queimo embreagem, eu não olho para trás. Acelero e vazo. "Fidumaégua bateu minha porta!" resmungo ainda baixinho, olhos fixos na avenida lá longe. Não reduzo na esquina, entro com tudo, ouço frenagem forte "devo ter fechado alguém". Nem ligo. Ouço buzina. Nem ligo. "deve ter me xingado" - nem ligo. Estou indo pra casa me limpar e fazer um neto para minha mãe.
Agradecimento: Maxwel Dalabeneta
UMA BRUACA DE CARGA
Daí toca e aceito, ainda estou em viagem, vou terminar em três minutos e já começar a próxima, nem vai dar tempo de bater os tapetes. Rodoviária costuma ser assim, uma viagem na bituca da outra. Na plataforma de embarque um agente de trânsito, paro, ele parece vesgo, tem um olho no relógio e outro na minha placa. Desço, abro porta-malas e tiro mala, sacos, pacotes e mochila. "De volta pra minha terra" – penso, passageiro agradece e vai. Dou cinco estrelas e confiro os dados da próxima chamada. Select! Já ganhou as três primeiras estrelas. Na telinha do aplicativo o passageiro me aguarda lá na rua, acho esquisito, é acesso da ponte. Enfim, o jeito é ir lá buscar macho. Sim, é um homem. No meio da alça de acesso, completamente errado, avisto um boiadeiro agitando o celular. É meu passageiro. Faço jóinha e vou alguns metros adiante, final da alça, menos arriscado parar. Desço e abro o porta-malas, vem arrastando peso e diz que a mala vai no banco traseiro, digo que lugar de bagagens é no bagageiro. Resiste, digo a lei, perde uma estrela. Esperneia, digo a multa, perde outra estrela. Quando vou falar dos pontos na carteira e tirar a terceira estrela ele cede. Tem cara de cantor sertanejo, pergunto de onde vem, acabou de chegar de Goiás. Tem jeito e chapéu de Rio Negro, tamanho de Solimões. Volta a ficar com três estrelas porque é do interior. "Moço, por que arrastou a mala até aqui se podia ter chamado na rodoviária?". Desconversa e abre a porta, entra e faz cara de enfado. Peço que afivele o cinto de segurança, bufa, diz que na Serra das Lajes isso é frescura. Conto até cinco, respondo que não estamos em Itaberaí. Faz cara de surpresa, eu informo que conheço Goiás e sei que antes de virar "Rio das Pedras Brilhantes" aquilo tudo foi Curralinho. Afivela o cinto. Confirmo o destino, waze informa meia hora de viagem. Dou seta rumo a marginal, percebo que me olha de soslaio. Sujeito do campo tem manias, acho que peguei pesado, tento ser simpático e pergunto de Itaberaí - todo mundo gosta de gabar sua terrinha. Ele gaba, fala da chegada do abatedouro, fala da proliferação de granjas, fala que a cidade cresceu, fala que muita gente enricou, faz cara de orgulho e gaba que esta prosperando. Parabenizo e penso que merece quatro estrelas, não dá tempo... Subitamente empurra o banco todo para trás, deita o encosto e antes que eu possa falar 'uai' as botas estacionam no painel. Sem dar seta, jogo para a última pista da direita e freio. É suicídio parar na marginal tão bruscamente, mas não estou com medo de morrer, o sangue subiu e um véu desceu sobre o mundo... conto até dez: "por-favor-tire-os-pés-do-painel-e-levante-o-encosto-do-banco!" Assim mesmo, devagar e separando educadamente as palavras. Ele se altera, vira uma franga de chapéu, deixo cacarejar. Estou com cara de paisagem. O boiadeiro acha que intimidou e encerra o piti caipira estufando o peito. Conto até quatro, engrosso a voz e digo que se ele é de Curralinho eu sou de Ponta Grossa - os itaberinos odeiam isso, é praticamente uma declaração de guerra! Silêncio no carro. As botas descem, o encosto sobe. Penso que estamos conversados e acelero lentamente para retomar a viagem. Não estamos conversados, o moço esta profundamente ofendido: "você-é-muito in-su-por-tá-vel. Assim mesmo, separando as palavras e depois as sílabas do insuportável. Daqui pra frente só pode piorar. Decido encostar de vez, estou calmo, desço, abro o porta-malas, tiro a bagagem e mando o galizé descer. Resiste, perdeu todas as estrelas, bufa, mas desce. Pelo retrovisor vejo a miniatura de Sérgio Reis mexendo no celular, deve estar pedindo outro carro. O próximo motorista não vai entender como arrastou mala até a marginal... finalmente compreendo ele parado na alça de acesso. Periga ser expulso novamente!! Leva uma estrela, por mim seria menos cinco, depois vou reportar. Nessa toada será bloqueado antes de voltar pra sua terra!
Agradecimento: Rhenan Ulisses
RODOPIANDO AO SOM DOS BANDOLINS
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Cabify. Passageiro já mandou as opções na solicitação: ar ligado; 101,7FM; não deseja que eu abra a porta. Ok! Tudo ilusão que passageiro do cabify é um degrau acima. Que a maioria é profissional bem graduado ou mesmo liberal. Que tem mais cultura, que é mais limpinho, diálogos mais elaborados, que não pede balinha. Tudo ilusão. Os passageiros, seja qual for o aplicativo, pedem água, pedem balinha e procuram bom atendimento com preço baixo. Mas é verdade que o usuário de Cabify geralmente entra mudo e sai calado. Cabify não existe pool. Nem pagamento em dinheiro. Cabify seria o paraíso dos motoristas se tocasse chamadas tanto quanto toca no Uber. Não existe mundo perfeito para quem dirige por aplicativo. Waze informa três minutos até o endereço de origem. Ligo o ar no máximo, sintonizo a rádio de preferência e vou. Osvaldo e seu Bandolin embalam o trajeto: “e como um par o vento e a madrugada iluminavam a fada do meu botequim." Na esquina eu preciso fechar o waze para conferir nome do passageiro e número da casa. Bairro residencial. Aproveito e deslizo a barra de "cheguei a local indicado" e fica disponível a barra "iniciar viagem". O endereço some! Paro em frente ao número memorizado. Rádio sintonizado "...e como se não fosse um tempo em que já fosse impróprio se dançar assim.” Ar ligado - temperatura interna agradável. Passageiro sai pelo portão e tenta abrir minha porta. Travada. Não abro. Foi ele que optou por "não abrir a porta". Deu cinco minutos vou embora, o passageiro não conseguiu entrar, eu cancelei e vou receber a taxa mínima. Só imagino esse final. Na verdade destravei a porta, o passageiro entrou mudo, fiz a viagem e ele desceu calado. Nada extraordinário aconteceu, viagens com o Cabify não rende boas histórias. Estou com saudades do povo do pool, daquela gente que faz malabarismo para economizar um real, gente que até chuta o carro! Mas ainda estou com raiva do Uber.
PROCURANDO BEM TODO MUNDO TEM PEREBA
Daí chama e vou lá buscar o passageiro. Meu carro está chutado pelo último usuário que a Uber colocou em meu caminho, já se manifestou avisando que não vai ressarcir o prejuízo, estou boicotando, vou atender apenas outros aplicativos até passar a raiva. O bom do capitalismo é o livre mercado, a concorrência, as opções, existe o 99pop da depressão, o Cabifay da depressão e... só trabalho estes. Então chego ao endereço de origem. Mulher com uma criança e uma adolescente. Abaixo o vidro, confirmo o nome e desço. Tenho cadeirinha no porta-malas, ofereço. A mãe faz cara de entojo, abre a bolsa e procura um pano, acho que é fralda, forra o assento para o menino sem dizer nada. Todos acomodados? Ela não forrou o banco onde está sentada "mil outros traseiros já sentaram aí" - só penso, não falo! Confirmo endereço de destino, quase dez quilômetros. Primeiros minutos de viagem ela pede que aumente o ar condicionado: "meu filho sente muito calor." Ouço a criança cochichar: "mas eu não estou com calor!" A adolescente ri. Eu rio por dentro e aumento a potência do gelo. Outros minutos de viagem a mulher pede: "terminando essa música você pode desligar o rádio?" Toca Whats'UP, um clássico na voz da pequena Linda Perry. Nos últimos acordes "trying to get up that great big hill of hope, for a destination" desligo e ficamos em silêncio. Pouco depois a mãe dá uma bronca: "para de cutucar o nariz que vai dar pereba!". Uns segundo de silêncio: "mãe, o que é pereba?" "São bolinhas de bactérias que dá em quem fica cutucando o nariz." Eu gosto da explicação. "Mãe, as bactérias ficam no meu nariz?" - "Ficam na caquinha, você cutuca e elas se espalham formando feridas no nariz e na boca". Pausa. O silêncio é longo. Quando o menino volta a falar a diversão começa: "mãe, se eu comer a caquinha também vai dar pereba?" A mocinha gargalha, eu rio modestamente, a mãe se desespera: "Não pode comer caquinha! Vai dar pereba dentro da sua boca!" Pausa novamente, o menino parece que nem respira de medo, mas a curiosidade retorna: "Mãe, como que tira a pereba da minha boca?" - "Tem que tomar remédio" - "O remédio é doce?" - "Não, é remédio ruim" - "Como você sabe que é ruim? Você já teve pereba?" A mãe percebe que caiu na armadilha e desconversa: "Tira o pé do banco, o moço vai brigar com você". Eu realmente poderia brigar, mas não hoje, não agora, não com esse menino. Ele reclama que está muito frio, pelo retrovisor consulto os olhos da mãe - que ainda está com cara de entojo, mas não dá anuência para baixar a potencia do ar. O silêncio volta, dirijo e a mente voa: “Fungos se proliferam no frio? Bactérias preferem o calor? Vírus tanto faz?" não falo nada. No waze falta pouco para terminar a viagem, o menino retoma: "Mãe, se cutucar esse machucado aqui também dá pereba?" - deve ser no braço ou na perna, não tenho como ver. "Não. Mas pare de mexer que já está sarando, se ficar cutucando vai sangrar." Nem bem termina de falar o menino comemora: "Olha mãe, saiu a casquinha!". Ela olha e também comemora: “Sarou, filho! Sarou!! Só não fique esfregando que a pele ainda está fraquinha”. Rua de destino. Verifico a numeração e estaciono, nenhuma porta se abriu ainda quando ouço: "Mãe, se comer a casquinha do machucado também dá pereba?" O tom demonstra irritação: "Cadê a casquinha? Filho, cadê a casquinha do seu machucado??" O menino não responde, faz cara de culpado, a mocinha gargalha, eu também. A mãe me fuzila com os olhos, sorte que neste aplicativo a avaliação é flexível. Ela sai com a criança no colo e esquece a fralda. Buzino, só a adolescente olha. Mostro a fralda e ela volta para buscar, ainda ri. Eu também.
JURO QUE NÃO ACREDITEI
Tem noite que satanás passeia pelo mundo. Aplicativo toca fora da área de risco, eu confio e vou buscar o passageiro que só o aplicativo sabe quem é. Eu não tenho foto, não tenho CPF e nem a profissão do usuário. Apenas um nome e um endereço! Chego ao local informado e tem seis pessoas paradas na calçada. Três mulheres, dois homens e uma criança. Uma senhora com visível dificuldade motora, precisa de ajuda de um dos homens para entrar no carro. No banco do carona o usuário que solicitou, informo que posso transportar apenas quatro pessoas por viagem. Ele reclama, porém desce e fica com uma das mulheres. Faço a viagem transportando um homem, duas mulheres e a criança. Dois mil e oitocentos metros de viagem, beira da Brasilândia, pagamento em dinheiro. Chego ao destino e percebo que não tem número na solicitação de viagem. Pergunto qual é a casa, nenhum dos passageiros sabe. Peço que liguem para o solicitante pedindo a informação, ninguém a bordo tem telefone. Pergunto quem vai pagar a viagem, ninguém a bordo tem dinheiro. Sinto cheiro e sabor de golpe. Usuário não coloca informações completas, não paga, não tenho onde reclamar. Não posso provar que é golpe, manobro o carro e retorno ao endereço de origem, encontro o casal que ficou. Informo que não tinha número no endereço e nem dinheiro, por isso trouxe todos de volta. O usuário que o aplicativo colocou no meu caminho se altera, diz que eu deveria ter deixado todos lá na rua. Que eu não estava considerando a senhora deficiente, que eu não estava considerando a criança, que eu estava me achando só por causa do carro de merda. Socou meu carro. Reclamei. Falou que não ia pagar a viagem, que ia me quebrar se eu não saísse da frente dele. Chutou meu carro. Desci. Os dois homens vieram pra cima, mas viram que sou grande e feio, vacilaram. A mulher entrou na minha frente pedindo "pelo amor de Deus vai embora". O desespero dela me acendeu sinal de alerta, um dos homens chutou minha perna e recuou. A mulher me empurrando para o carro. Liguei 190. Informei agressão física e material, todos perceberam que a polícia estava a caminho e saíram, desceram a rua correndo. Até a mulher da dificuldade motora estava correndo. Antes de sumir na esquina o usuário que o aplicativo colocou em meu caminho, em meu carro, berrou que ia me achar e eu estaria "F-O-D-I-D-O". Separou cada letra em maiúsculas. A mulher com a criança no colo gritou com ele, puxou pelo braço e sumiram. Polícia não veio. Eu aguardei. Vizinhos finalmente saíram, olharam, não comentaram. Tinham todos aquele olhar de pássaro engaiolado. Saí do local e parei no primeiro posto, local iluminado, fiz relatório, fiz fotos, enviei tudo para a Uber. Solicitei ressarcimento dos prejuízos, a resposta veio rápida: "estamos atuando e entraremos em contato". Enquanto o aplicativo atua, o usuário agressor está impune, provavelmente chamando outro motorista. Não posso dizer que era golpe, mas teve jeito, teve cara, teve cheiro de golpe... Tudo para não pagar nove reais? Desliguei o aplicativo e estou em casa, sensação de impotência. O carro esmurrado e chutado violentamente está garagem, satanás está nas ruas. Altas Horas na TV. Noite deprimente.
CAIA NA GANDAIA ENTRE NESTA FESTA
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Aclimação. Sexta-feira de lollapalooza, o relógio marca vinte horas e vinte minutos, movimento está fraco, a vida está difícil. Cinco pessoas em frente ao portão, adultos, acenam quando estou encostando. Conversam com se fossem colegiais indo ao cinema, meia dezena de aposentadas, uma diz que esqueceu o remédio e outra pergunta se posso esperar um minutinho, claro que sim. Entra a primeira, no banco do carona, atrás de mim a porta abre e fecha duas vezes antes de entrar alguém. Do outro lado, a porta que abre para a calçada, permanece escancarada. A indecisa que estava atrás de mim desce, vai ajudar a amiga segurar a porta da calçada, as outras duas foram buscar o tal remédio. Só observo! Vou vetar a quinta passageira, mas nada de sofrer por antecipação, vou esperar voltarem e confirmar se pretendem mesmo viajar as cinco. Estão demorando, clico para iniciar a viagem, Rua Palestra Itália número 500. A viagem já começou faz alguns minutos e as duas não voltam com o tal remédio, a senhorinha ao meu lado reclama, "vamos perder o teatro". Imagino que seja o Teatro dentro do shopping, pergunto, ela confirma e começa a discorrer sobre sua paixão por teatro. Foi atriz por trinta e cinco anos, olho para o rosto dela, procuro traços conhecidos, nunca vi. Ela continua falando da 'grande arte' e nada das duas voltarem com o remédio. As duas que seguram a porta também reclamam a demora, acho que se passaram mais de dez minutos. A senhorinha ao meu lado solta uma onomatopeia que me parece palavrão, não entendo, parece japonês, pergunto na cara de pau ela confirma que é japonês "aprendi para rezar os mantras budistas, para invocar os espíritos, proteção dos antepassados, essas coisas..." foge do mérito e manda as duas agilizarem as outras amigas. Das duas que seguram a porta, uma solta e vai em busca das outras duas, agora são duas idosas comigo e três perdidas. Mais alguns minutos e nada. "Eu não peço mais nada para Deus, só que me livre desse carma" – solta a atriz "já tive muita fé, teve um tempo que nada dava certo na minha vida, fui para a igreja, orava, pagava dízimo, fazia jejum, esfolava o joelho de tanto orar, fiquei até com a boca mucha de tanto Pai-nosso, de tanto 'lamaia-samalacai-estepenaia' e nada de melhorar minha vida. Um dia abandonei a igreja e tudo começou a dar certo!" Não entendo por que a atriz está dizendo tudo isso, fico calado. Não gosto que debochem religiões, nenhuma religião! As três voltam, quatro delas se apertam no banco traseiro, são magérrimas, idosas esqueléticas, menos a atriz, ela é gordinha. Penso na multa, penso no horário para o teatro, dentro do carro silêncio absoluto, fico com pena e toco para a Vinte e Três de Maio sem falar nada. Antes das nove da noite o elevado ainda está aberto. A viagem é rápida, menos de meia hora. "Bem a tempo de pegar a peça" – comemora a atriz. As quatro senhorinhas falam entre si e ouço uma dizer quase clandestinamente: "não falei que ele trazia todas nós? Economizamos um Uber." outra voz quase cochichada emenda: "na volta a gente faz a mesma coisa!" Ouço risinhos, também sorrio por dentro. Danadinhas!
NOVOS BAIANOS TE PODEM CURTIR
Daí toca. Nove minutos até o endereço inicial. "só vou porque estou no rumo, mas vai cancelar" – penso, aceito, abro o navegador. As vias são linhas vermelhas no mapa da cidade, pouco mais de um quilômetro de distância, tudo isso de tempo... "vai cancelar". Entro nas veias abertas da cidade, os primeiros cem metros foi fácil vencer, o caos está ali, virando a esquina. Ônibus, carros, motos, pedestres, bicicletas, todos convivendo em perfeita desunião pelas calçadas, ruas, faixas e canteiros. "Greve de professores" avisa o radialista âncora. "servidores municipais", corrige o colega do Boechat. Eu mudo a sintonia para AlphaFM, a rádio que não compromete a viagem. Toca em todos os elevadores da cidade. Minutos depois recebo mensagem: "cadê você?". Parado é fácil digitar: "na esquina da Timbiras, a caminho". "Estou em frente ao Copan" é a resposta que recebo. Bons minutos depois "está perto?". Estou, mas tenho que dar a volta, se ele andar uns cem metros vai me encontrar. Minha resposta é sugestiva: "parado em frente ao Itália, trânsito complicado". Recebo a resposta: "aguardando na porta do Copan". Mando um 'joinha' e penso novamente que o passageiro vai cancelar. Não cancela, envia outra mensagem: "fala a verdade, você está longe?" estou a uns cem metros, mas preciso dar a volta evitando a contramão, mais de seiscentos metros para chegar em frente ao Edifício Copan. Se ele caminhasse até aqui seria mais rápido... minto para ganhar uns metros: "na São Luís, quase Consolação". "Continuo em frente ao Copan". Não respondo. Uma ambulância complica mais a vida de todo mundo, e não é porque tenta passar, mas porque não desliga a sirene. Metade do meu carro está sobre a calçada quando chega nova mensagem "você está vindo mesmo?". Desde que aceitei a chamada já se passaram dezesseis minutos, deveria ter recusado, agora já gastei combustível, gastei ar condicionado, gastei tempo, gastei paciência minha e do passageiro, gastei buzina. "Se ele cancelar agora... vou lá só pra matar esse passageiro" – só penso, a resposta é simpática: "sim, a Araújo deve estar limpa". Consigo sair do caos e a Rua Araújo realmente está livre, chego rápido em frente ao Copan, paro e entram três pessoas, o homem senta na frente: "estava falando com você e rindo de suas respostas". Eu faço cara de hãã... ele explica: "não sou daqui, nem faço ideia de onde você estava. Aqueles nomes que você escreveu, eram nomes das ruas?". Soteropolitanos famintos, me agradecem pelo ar ligado, a viagem é curta, menos de oito minutos em direção ao restaurante. Hotel sugeriu a eles que não andassem a pé nesta região. Comento que durante o dia não é perigoso e que chegariam muito mais rápido, concordam. No rádio toca Raul. Começam se gabar pela Bahia, Raul era baiano. Desfilo notórios mineiros, lembro o Clube da Esquina, fico me gabando por Minas Gerais. É divertido. Finalizo a viagem e trocamos cinco estrelas. Os passageiros foram agradáveis, mas estou frustrado, a viagem com certeza não deu lucro.
segunda-feira, 14 de maio de 2018
NÃO QUERO MAIS ANDAR NA CONTRAMÃO
Dai toca e vou lá buscar o passageiro. Menos de cem metros do endereço solicitado um moço salta no meio da rua, agita o celular. É o meu próximo passageiro. É grande. Paro, antes de entrar bate no vidro do passageiro, abaixo, pede que eu puxe o banco do carro até o final, puxo liberando mais espaço entre banco de trás, ele protesta, é para abrir espaço na frente, volto o banco até o final ele abre a porta e entra, o carro afunda, amortecedores rangem, molas gritam, estofado cola no assoalho ao som de ar sendo expulso pelos poros de espuma. Confirmo nome e destino, o moço ajeita o encosto do banco para quarenta e cinco graus, recomendo que levante um pouco o encosto, ele diz que precisa dividir o peso no carro e ri, mas retoma o encosto uns vinte graus na vertical. Puxa o cinto, ajudo travar. Começo a manobrar e ele pergunta se posso aumentar o ar. Mudo para o máximo. Pergunta se tenho balinha. Diante da negativa gargalha como se tivesse ouvido a melhor piada do mundo: "estou na maior larica, mano". Não sei se está brincando ou falando sério, os olhos estão vermelhos, deve ser verdade! Abre o vidro e diz que é para não ficar cheiro no meu carro: "o próximo passageiro vai te reportar" ri como se tivesse Jerry Lewis contando anedotas. Desligo o ar, pede que deixe ligado, não discuto. Não ligo. Abro meu vidro e os vidros traseiros. Pergunta se tenho água e responde ele mesmo: "só no radiador". Cada frase acompanha uma gargalhada. Eu rio junto pensando que ele frequenta o grupo UDD. Pergunta meu nome e antes que eu responda me interrompe: "tô podre de fome, pode parar na primeira padaria ou lanchonete ou carrinho de cachorro quente?" Respondo que sim e digo meu nome. Pergunta se sou carioca, digo que sou de Minas Gerais, suspira aliviado e diz que só se fode na mão de carioca: "mas todo mineiro que eu trombo vira meu amigo". Gargalha, na dúvida rio também. Diz que vai fazer a bariátrica, que seu peso passou dos limites e vai se livrar da banha, ri de si mesmo e percebo alguma tristeza. Fala um palavrão atrás de outro. Pergunto se já tem data pra cirurgia, diz que sim, e que está morrendo de medo. Faço piada: "deixe para morrer depois que emagrecer, os carregadores de caixão vão agradecer". Ri desesperadamente, me chama de filho da puta, virei seu melhor amigo. Pergunta se eu fumo. Não fumo. "Você é inteligente, eu sou um gordo que fuma pra caralho". Mais uma vez a risada tem traços de tristeza: "sou burro pra caralho. Um burro gordo do cacete, tô fodendo com meu corpo". Ri olhando para o infinito através da janela, eu não sei o que dizer, não rio. "Mas agora vou operar e me cuidar, estou chegando nos trinta... Vou me virar nos trinta" gargalha. Para de rir abruptamente, pensou em algo, resmunga palavrões tentando tirar o celular do bolso, o banco range, não digo nada, ele finalmente vence a batalha e liga: "Doutor, desculpe ligar novamente, mas tenho outra dúvida" do outro lado alguém dá anuência ele continua: "quanto tempo após a cirurgia eu vou poder fumar?". Um minuto de silêncio, está suando: "antes e depois?" Xinga com a resposta, as notícias não parecem boas: "...tudo isso?". Passa as costas da mão na testa, as notícias parecem péssimas: "doutor, me diz uma coisa, nem maconha?". Vai de puta que o pariu a aleluia. Eu solto uma gargalhada. Figuraça, tá na maior onda. Do outro lado desligam, fica olhando a tela do celular, sua fisionomia estampa a mais legítima tristeza: "vou desistir dessa porra!" - não ri pela primeira vez. Não digo nada, só dirijo. O waze aponta mais seis minutos de viagem quando ele avista o bar de esquina, pede para encerrar a corrida: "preciso comer!". Desce com dificuldades, abaixa a cabeça na altura da janela, agradece e diz que vai me dar cinco estrelas. Ganha cinco também, ótimo passageiro.
PULGAS QUE HABITAM MINHAS RUGAS
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Saída de shopping, dois clones da Gretchen, uma loira, outra água de salsicha. Boa tarde e confirmação de destino, ninguém responde. A loira pede para desligar o ar, desligo, ela comenta com a outra que ultimamente tem sentido uns calafrios. É solenemente ignorada. Água de salsicha não se comove com as crises de friácas da amiga e fala de si mesma: "esse dentista elogiou que eu tenha apenas dois implantes, apesar das raízes dos meus dentes serem curtas" a amiga se vangloria: "toda consulta ele se impressiona que meus dentes sejam todos naturais" a salsicha é cruel, "muito raro na sua idade ter todos os dentes", a loira releva a alfinetada e busca um elogio por tabela: "muito da minha boa aparência é resultado do cuidado com os dentes" outro solenemente vácuo, "minha antiga dentista era maravilhosa, espero que este seu amigo mantenha a excelência, estou acostumada com o melhor tratamento preventivo". A relação está estabelecida, loira esnobe falida amiga da salsicha esnobe que tem posses. "já pode ligar o ar novamente!" - só para confirmar minha impressão. A loira não protesta, mas ouço um remexer de roupas atrás de mim, deve ter fechado o colarinho. Falam de outra amiga, está gorda, na última festa a camisa estava abrindo um vão entre os botões: "alguém precisa dizer que está um numero abaixo do ideal" a salsicha emenda: "ou dois números, há que elogiar os botões, estavam bem costurados" riem. Lembro o filme rei leão e os estertores hilários a simples menção de "Mufasa!". Já estão em outro assunto, falam de dermatologista; de alguém que teve câncer; de outra que perdeu o marido para uma aventureira; a loira volta reclamar dos calafrios, a salsicha ignora e discorre sobre viagem a europa no inverno, não falam de respectivos maridos. Chego ao destino, encerro a corrida com outro boa tarde ignorado por ambas. Descem pela mesma porta, a salsicha se desequilibra no salto e segura no primeiro apoio que a mão encontra. Ouço um som de cola se soltando e a queda. O borrachão da porta traseira se foi inteiro. Desço e vou acudir. A salsicha com a perna embaixo do carro, sobre ela sacolas e o batente da porta, ainda segura o borrachão, soltou as sacolas. O rosto expressa medo, daria um bom meme de Gretchen-aflita, me comove, dou a mão. Ajudo pegar sacolas, são várias. Ela se recompõe, ajeita um filé de salsicha atrás da orelha e tenta sorrir um agradecimento, os dentes são amarelos. A loira não consegue demonstrar por conta do botox, mas está rindo o tombo da amiga, não vejo os dentes. Recolho o borrachão, jogo sobre o banco traseiro e desligo o aplicativo. Passou a comoção, estou muito puto.
SENHORES! SENHORES! SENHORES!
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Dia do meu rodízio da placa, mas eu gosto de dirigir, gosto de trabalhar, gosto de pagar os boletos em dia. Ligo o aplicativo as dez em ponto e logo toca. Origem, Hugo D'Antola, polícia federal. Lapa. São Paulo. Sujeito entra mudo e sai calado, destino: aeroporto de Congonhas. Som ambiente, ar condicionado, marginal Tietê livre, Bandeirantes tranquila, tudo contribuiu e o passageiro ganha cinco estrelas no final. Só abriu a boca para dizer obrigado. Gosto disso! Gosto quando o dia começa bem. Estou acionando seta para sair quando toca, no desembarque. Lá vou eu, dar a volta lá na pequepê já que esse aeroporto é inimigo do motorista, inimigo da economia de tempo, amigo do consumo de combustível... custava inverter e o embarque ficar aqui no fim das plataformas o desembarque lá na outra ponta? A gente chega ao aeroporto de Congonhas, passa pela plataforma de desembarque, enfrenta toda muvuca de carros, passa taxis, passa vans, passa todo o auê de gente que chega estressada de voos, passa a curva da policia federal e só depois da área restrita começa a plataforma de embarque. Na plataforma estaciona rapidamente para não levar multa, deixa o passageiro e se tiver sorte de ser chamado no aplicativo, faz o que estou fazendo agora, dá uma volta monstro para retornar lá na plataforma de desembarque. A gente pega tudo novamente, a muvuca de carros, os táxis, as vans, o auê de gente estressada de voo, encontra um buraco para embicar o carro e fica rezando para não levar multa por estar atravessado, já que é impossível estacionar corretamente. O dia tinha começado tão bem! Enquanto faço a volta monstro ligo, confirmo a localização exata do passageiro, a instrução dele: "tô embaixo da segunda placa". Vou lá procurar placas na plataforma de desembarque. Tem várias placas. Umas de sinalização do aeroporto e outras de sinalização de transito, quais ele contou? Contou todas, está embaixo da primeira que sinaliza desembarque, antes dela tem a placa de 'proibido parar e estacionar'. É cada ponto de referência! Embico o carro, torcendo para não ser visto pelo agente de trânsito, o passageiro me identifica e vem, caminhando lentamente, telefone toca ele para e atende, fica falando a cinco metros da minha porta. Eu xingo mentalmente: "corre desgraça! vou levar multa sua anta". Desliga. Entra, não tem mala, apenas maleta-mochila de rodinhas. Coloca no banco. Nem ligo, só quero sair da zona de multas. Confirmo nome e destino. Reconheço, ex-atual-futuro-político envolvido até as tampas com desvios de verbas. Fico quieto, só dirijo, mas ele puxa conversa: "Tá com cara de chuva, né?" Ok. Vou ser simpático, se eu grito Fora-Temer, periga ter que sair no tapa: "Se Deus quiser! Afinal lavei o carro hoje e se não chover não tem graça". Só porque dei trela ele tenta trolar, ou então é a tal imunidade parlamentar, sabe que não vai levar no meio da fuça: "Nem parece que lavou..." Oi? É ISSO MESMO? - só penso, indignado com o fidumaégua, mas tentando manter a cara de paisagem. É esperto, percebe que não agradou e tenta consertar: "Essa poluição toma conta de tudo tão rápido, né?" Levantou a bola na grande área, dou de voleio: "Verdade, sujeira toma conta de tudo, inclusive da moral dos políticos, NÉ?" Dou ênfase no "né" olhando pelo retrovisor. Não responde, finge cuidar dos papéis que tirou da mochila. O resto da viagem não abre a boca. Pena, queria só um pio para gritar 'Fora-Temer' e depois fazer descer no meio da Rubem Berta/Vinte e três de maio. Pede para contornar a ALESP e entrar no estacionamento, desce sem agradecer, sem desejar bom dia, sem oferecer propina. Achei que esses tipos só andassem de carro oficial, gastando dinheiro nosso com motorista particular. Levou uma estrelinha! Nunca vai levar meu voto.
ELA FAZ TUDO SEMPRE IGUAL
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Começou com tudo para dar errado, o endereço de origem era um laboratório, cheguei e não tinha ninguém com cara de "estou esperando uber" então mandei mensagem para a moça: 'boa tarde' em seguida informei que estava no local e aguardava. A resposta: "estou na padaria que faz pão". Claro que não foi isso, ela enviou o nome da padoca, mas não vou fazer propaganda. Eu poderia ficar irritado, quase dois quilômetros rodados para descobrir que não tem passageiro ali? Poderia ter esperado cinco minutos e ganhar taxa de cancelamento, estava no local solicitado e qualquer júri me daria ganho de causa. Poderia pedir um misto quente para a moça, baita fome. Poderia ter feito o que fiz: "Qual o endereço da padaria?". A distraída percebeu o equivoco, havia chamado pelo último endereço salvo no aplicativo. Pediu desculpas, se preocupou em saber o que poderia fazer. Solicitei novamente o endereço da tal padaria, menos de um quilômetro de distância, fui lá! Mulher jovem com menina, aparentando quatro anos, a menina. Ofereci cadeirinha, afivelou a filha, deu um tablet e a pequena começou torturar alguma Peppa. Só ouvia os gritos a cada dedada na tela touch. A mãe pediu e a menina tirou o volume. Já em transito a mãe confirmou: "Está aí endereço tal?" Sim, respondi. "Seu nome é Adalberto?" Sim. "Está pagamento em dinheiro? Sim. "O senhor tem maquininha para débito?" Sim. "Então já vou pegar o cartão". Pelo barulho de mexe-remexe percebi que a bolsa estava cheia. Minutos depois ainda mexia na bolsa, despejou tudo no banco, quilômetros depois ainda mexia na bolsa. Finalmente ouvi um "Achei" e pelo retrovisor vejo a mão com um cartão. Liguei a maquininha e ela ligou o celular, som de candycrush. Tirou o volume. Viagem silenciosa até o fim. Fechei a corrida, falei o valor esperei. Pelo barulho de mexe-remexe percebi que remexia na bolsa cheia. "Meu Deus, eu peguei o cartão agora mesmo"! Minutos depois ainda mexia na bolsa, despejou tudo no banco, guardou tudo. Abriu a porta, desceu olhou embaixo do banco, no vão da porta, finalmente lembrou que havia colocado o cartão no sutiã. Veio até o vidro do passageiro, me entregou o cartão, cobrei, ela recolheu tudo no banco de trás e saiu. Dei quatro estrelas e fui, virando a esquina um sombra que Deus criou exclusivamente para motorista uber estacionar. Parei, bora aguardar tocar. Cinco minutos depois ouço: "Cadê a mamãe?". Gelei! Os pensamentos pareciam pipoca em panela quente com a tampa fechada. Girei o pescoço lentamente, esperando que no banco atrás de mim fosse um fantasma. Seria ótimo se fosse uma assombração. "Seja um poltergeist. Seja um poltergeist. Seja um poltergeist...". Não era um poltergeist. A menina estava tranquila, ainda torturando a Peppa, fizera a pergunta por distração sem tirar os olhos da tela. Eu gelado, calado, sem reação. Vinte segundos depois me ocorreu tranquilizar quem estava tranquilamente esperando que a mãe voltasse tranquila de onde quer que tivesse ido: "Mamãe foi ali jogar CandyCrush e já volta". "Tá bom" - torturar a Peppa estava mais interessante. Dei a volta no quarteirão, parei em frente o condomínio ao mesmo tempo que o carro de polícia. Até explicar que a mãe não tinha feito falsa comunicação de crime e que eu não era o criminoso da falsa comunicação de crime e que por eu não criminoso também não existia verdadeira comunicação de falsa denúncia... enfim. A mãe levou um senhor esporro do tenente que chegou na sexta viatura. Eu levei um senhor esporro do sargento que queria mostrar serviço pro tenente, porque não vistoriei o carro antes de encerrar a corrida. O porteiro levou um senhor esporro do cabo, porque estava filmando tudo. Ainda tive que apresentar documentos do carro comprovando que estava tudo ok. De alguma forma queriam algemar alguém, nem que fosse o carro! Saí da muvuca, liguei novamente o aplicativo só para alterar a nota da passageira, uma corrida que começa com tudo para dar errado, não tem como terminar dando cinco estrelas. Uma estrela está de bom tamanho. Nunca alguém fez tanto por merecer!
MEU NEGÃO!
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Sujeito entra sorrindo, ocupa o banco do carona e cumprimenta. Negro, cabelo raspado, forte, gosta de mostrar os dentes. Tenho a impressão que já vi em algum lugar. Deve ser ex-jogador. Confirmo o endereço, vou para a periferia, ainda é dia e não me preocupo, o mal ronda só quando escurece. Conversa vai, não é ex-jogador. Conversa vem, não é pagodeiro. Ele pergunta de onde me conhece, respondo com pergunta "você é do spc/serasa?". Sorri com todos os dentes, abre o aplicativo, lê meu nome em voz alta e pergunta se sou filho do pastor. Reconheço! Fomos amigos de berço, a mãe dele cuidava de mim aos três anos de idade. Adolescemos vizinhos e perdemos contato ao entrar na vida adulta. Vim para a capital faz trinta anos, ele está a cara do pai e foi daí que eu lembrava. Meu Negão! Meu negão era o pai, motorista do laticínio, saia de madrugada recolhendo leite nas fazendas. Voltava pela hora do almoço, eu menino ouvia a babá dizer "meu negão chegou" ou "meu negão está atrasado" ou "vamos comer que meu negão vai demorar" e de tanto ouvir achei que o pai de meu amigo era "meu negão" para todos. Um dia, por um motivo já esquecido, chamei o homem de "meu negão" e virou anedota. Pegou o apelido, Meu Negão. Relembro essa história e meu passageiro entristece os olhos, esconde os dentes. Meu Negão se foi. É recente. O ar está ligado, parece mais frio com a tristeza dentro do carro. Um minuto de silêncio e os dentes voltam a aparecer para dizer de filhos. Estamos perto do destino, convida para descer, aceito e conheço a família. Lembramos outras histórias, outras vidas, outros tempos. A viagem ao passado faz esquecer as horas, a tarde se foi e a noite chegou. Na despedida um abraço demorado, são trinta anos. Ligo o carro e faço aceno, deixo no portão meu irmão de berço com a filha. Na garganta um nó. Vamos nos visitar... Na esquina eu paro, não penso que é noite, não penso no mal que está a espreita, sinto urgência em compartilhar: "mãe, sabia que o Meu Negão morreu?" do outro lado da linha ela diz que sabia. Reclamo: "ninguém me avisou?". "Uai, achei que você nem se lembrava dele" pelo tom da voz ela quase se desculpa, me comove mais ainda "não lembrava mãe... mas lembrei". O nó da garganta sobe e embaça os olhos.
ESPERANÇA EQUILIBRISTA
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Elis me encanta no rádio: 'Caía a tarde feito um viaduto'. Lá na frente um senhor com cara de distinto, terno e gravata, não é um bêbado como canta a música, falta o chapéu-côco. Faz um gesto com o braço, quase uma irreverência-mil, se identificando como meu próximo passageiro. Paro de maneira a facilitar seu acesso ao banco traseiro. Ele não aceita minha gentileza, com dois passos alcança a porta do carona e entra. Ajusta o cinto por cima do paletó e pergunta: "tem balinha?". Não senhor, não tenho balinha. Confirmo nome e endereço destino. Ele fica mudo, eu tenho o ímpeto de me desculpar por não ter balinhas, como se fosse uma falha grave não ter balinhas. O waze informa seis minutos de viagem, só até a estação do metrô. O constrangimento será rápido e já estou sabendo, não vou receber cinco estrelas. Dirijo relembrando o meio do dia de hoje, a criança entrou, nem bem pisou meu banco com seus sapatos infantis, soltou a pérola: "tem balinha?". Não tinha balinha e continuo não tendo balinhas! A mãe reclamou que outros motoristas tinham balinhas, agora quase nenhum tem balinha e o filho se acostumou a ganhar balinha já que diariamente vai e volta da escola de uber. Eu não me desculpei por não ter balinha. O menino fez birra, esperneou, chutou meu banco, aborreceu a mãe e levei poucas estrelas por não ter balinha. Custava ela ter balinhas para o próprio filho? Dei três estrelas, antecipando o chumbo trocado. Elis arremata meus pensamentos: 'Chora a nossa pátria, mãe gentil / Choram Marias e Clarices no solo do Brasil'. Minha nota está baixando, acho melhor comprar algumas balinhas. O equilibrista sem chapéu-côco está mudo ao meu lado. Está com cara de quatro estrelas? Fim da viagem, ele desce sem dizer adeus. Elis Regina também finaliza participação: 'Azar, a esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista tem que continuar'. Eu dou quatro estrelas, precaução, nunca vem cinco estrelas após o passageiro pedir água ou balinha, ou pra mudar de rádio, ou ligar o ar, ou desligar o ar, ou mudar a rota, ou questionar rota do waze, ou... qualquer questionamento do passageiro vai influenciar nas estrelas. Pisou no coco do cachorro ao descer? Culpa do motorista. Durante o trajeto a sogra ligou que vem pro final de semana? Azar do motorista. Criança vomitou no banco? As estrelas do motorista dançam. Na calçada um camelô de guloseimas, estou considerando descer e pegar umas balinhas quando toca novamente, nem preciso me mover. Mocinha saindo do metrô, ainda fora do carro pergunta meu nome. Digo o meu nome e também o dela, sente segurança na confirmação, abre a porta e senta atrás do carona. Confirmo o endereço destino e ela ignora com uma pergunta: 'Por acaso o senhor tem balinha?". Acho que minha cara responde porque ela emenda: "Tudo bem, não é importante". É sim mocinha, é importante eu já saber das minhas estrelas - só penso! Desço e vou no camelô: "dá cinco reais de balinhas". Volto sorrindo para o carro e ofereço balinhas, ela me olha com estranheza, como se estivesse sofrendo assédio.
ESSA ONDA QUE TU TIRA QUAL É?
Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Porta de escola, já entram tocando o terror, no melhor estilo sobrinhos do Donald. Três pestinhas cursando ensino médio. Sentam no banco de trás e começam com as perguntas básicas: Tem balinha? Gosta de ser uber? Quanto tempo dirige uber? O carro é próprio ou da uber? Além de dirigir uber também trabalha? Uber dá dinheiro? Uber não cansa? Uber dá dor nas costas? O motorista uber peidou? Dirijo e respondo ao trio, Huguinho, Zezinho e Luizinho! No waze ainda faltam quatro quilômetros de viagem. Exageram sobre o futum flatuloso, ameaço expulsar todos do meu carro. Huguinho assume o pum e pede desculpas, leva cascudo dos outros dois. Eu também daria se não fossem os boletos vencendo. Pedem água. Pedem álcool gel. Pedem Wi-fi. Pedem música. Pedem para sacanear, já avisei que não ofereço nada disso. “Nem balinha tio?” Nem balinha. Você ganha bem ou não? Gosta de ser uber? Vizinho do meu avô disse que tira vinte mil por mês na uber... Devem perturbar motorista todos os dias. Cada qual vai descer num local diferente. Búffalo Soldier tocando no rádio... começam a perguntar se tenho erva, bolinha, pó, catuaba, se tomo a azulzinha. Sou promovido de tio para avô. É perigoso dirigir uber a noite? Gosta ou não de ser uber? Na esquina tem monturo de lixo pegando fogo, semáforo fecha a fumaça chega e a coincidência vira outra perturbação "não tem balinha porque comeu tudo na última larica". Bob Marley encerra participação, sinal abre e a fumaceira fica para trás. Luizinho é o primeiro a descer, deixa cinco reais e ameaça: "na próxima se não tiver balinhas vou te dar só uma estrela". Respondo que espero nunca mais vê-lo. Mostra o celular, insinua diminuir minha nota e avisa que estou em suas mãos. Ouço um berro debochado, é Huguinho com a cabeça para fora durante minha manobra, dou bronca, sério, se acontece algo sou o único culpado. Pede desculpas outra vez, aviso que na terceira falta vai ter que descer. Zezinho fala ao telefone, pergunta se pode mudar o trajeto "só dois quarteirões". Peço que mude no aplicativo, reclama que pediram no celular do que desceu. "vai dar rolo - penso". Huguinho não quer desviar o caminho, quer chegar logo em casa. Discutem, os argumentos vão de fome a pum represado. Entrego primeiro o peidorreiro, ele também deixa cinco reais. Zezinho reclama qualquer coisa com ele e fecha a porta. Sozinho não tem assunto, mexe no celular, por precaução avisa o amigo que vai alterar endereço, mudo a rota no waze. Ficamos em silêncio até finalizar a corrida. Doze reais e alguma coisa, ele também me entrega cinco reais, agradece e bate a porta. Aceno um tchau... "Sim, é cansativo!" respondo mentalmente. Dou três estrelas, uma para cada sobrinho do pato. São divertidos, mas depois de oito horas no volante, essa dor nas costas...
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