Daí o relógio marca vinte e três horas e muitos minutos, estou na Vila Madalena, decido encerrar o expediente e faço o direcionamento de viagens, está gravado o endereço de casa, vou receber apenas chamadas em direção ao meu lar doce lar. Passa da meia-noite quando toca, vou lá buscar a passageira, no local de origem um bistrô. Três mulheres na calçada, encosto ao lado, nem se mexem. Aguardo uns segundos antes de abaixar o vidro e perguntar se estão aguardando Uber. Sim, estão. "Fulana?" sim, é a fulana, voz pastosa, gestual lento, bêbada com moderação. Abre a porta, entram as três no banco de trás. Confirmo endereço destino, a voz de cana avisa que cada uma vai para um lugar diferente. "Fudeu" – penso. Pergunto qual endereço da primeira, ela também tem voz de cana, mudo no waze, considero que seria desgaste inútil querer mudar no aplicativo. Só um quilômetro a frente "Desfudeu"- penso com alguma felicidade. Basta virar a terceira e seguir linha reta por mais setecentos metros, chegamos, a primeira agradece, sons de beijinhos, risadinhas, as duas vozes de cana falam ao mesmo tempo: "Precisamos nos ver mais vezes". "Precisamos nos ver e beber". "Precisamos encher a cara". "Vamos beber todas...". "Eu tô doidona". Riem. "Moças, vocês já beberam todas – só penso". Eu penso muito. Finalmente desce, bate a porta, tropeça, não cai, fica parada em frente ao portão. Eu sempre aguardo entrar - tenho essas delicadezas. Peço o segundo endereço. A terceira que até então estava calada, continua calada, não consegue dizer para onde vai. Lá fora a primeira que desceu ainda faz confusão com as chaves, demora, pergunto se precisa de ajuda, recusa com um gesto, tenta novamente e consegue abrir. Dentro do carro, após minutos de indecisão e apreensão, a voz de cana decide: "ela vai dormir lá em casa!". A caladinha concorda, a voz de cana completa: "Vai dormir igual um anjinho por causa do vinho". Ri a caladinha ri também e fecha os olhos. Encerro a questão. É rumo de casa! Dirijo e a voz de uva – foi promovida, pergunta: "Moço, você é solteiro?". Moço sou eu. "Sou casado". A voz de uva insiste: "Sua mulher não acha ruim você dirigindo a noite?" Tenho resposta pronta: "Minha mulher só acha ruim encontrar boleto vencido na caixa de contas a pagar". Ela não ri. Considero que o recado está dado ou não compreendeu. Meio quilômetro adiante começa a rir, repete: "Sua mulher só acha ruim encontrar boleto vencido". Demorou para entender a piada. Rio dela rir atrasado. Ela acha que estou rindo com ela e começa gargalhar, a caladinha abre os olhos, percebe que só ela não está rindo de algo e começa rir também. Eu acho mais engraçado e deixo escapar uma gargalhada, vira uma bola de neve risonha, quanto mais riem, mais rio também. Isso porque a piada nem é tão engraçada - penso e paro de rir. Estão bêbadas. A caladinha para de rir e lembra o endereço da casa dela, grita o nome da rua e o número apontando para meu celular, decerto acha que o aplicativo vai ouvir e mudar a rota. A voz de uva descarta mudar a rota: "Você vai dormir na minha casa". A caladinha concorda e volta a fechar os olhos. A voz de uva, comenta olhando para mim através do retrovisor: "Eu nem queria dormir... mas enfim". Eu só dirijo. Paro em frente ao endereço na Pompéia, a caladinha acorda com um cutucão, desce e fica em pé ao lado do carro, tentando reconhecer o território. A voz de uva está menos pastosa, agradece colocando a mão no meu ombro: "Você é um homem correto, muito obrigada. Outro qualquer poderia se aproveitar da situação". Não sei direito se é a última insinuação ou é sinceridade. Não comento. Ela desce, dou cinco estrelas e desligo o aplicativo. Fico com pena, tinha amargura fermentando o bafo de uva. O porteiro sorridente destrava o acesso, fico olhando elas entrarem, ele solícito, cercando como quem escolhe o frango para a canja. Dou uma buzinada, só um toque, leve, ele se vira e dá de cara com meu cenho franzido. Murcha o sorriso. Muda a postura. Deixa que sigam sozinhas para o elevador. Retoma seu posto. Giro o volante pensando Drummond; Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Pego o rumo de casa.
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