terça-feira, 15 de maio de 2018

UMA BRUACA DE CARGA

Daí toca e aceito, ainda estou em viagem, vou terminar em três minutos e já começar a próxima, nem vai dar tempo de bater os tapetes. Rodoviária costuma ser assim, uma viagem na bituca da outra. Na plataforma de embarque um agente de trânsito, paro, ele parece vesgo, tem um olho no relógio e outro na minha placa. Desço, abro porta-malas e tiro mala, sacos, pacotes e mochila. "De volta pra minha terra" – penso, passageiro agradece e vai. Dou cinco estrelas e confiro os dados da próxima chamada. Select! Já ganhou as três primeiras estrelas. Na telinha do aplicativo o passageiro me aguarda lá na rua, acho esquisito, é acesso da ponte. Enfim, o jeito é ir lá buscar macho. Sim, é um homem. No meio da alça de acesso, completamente errado, avisto um boiadeiro agitando o celular. É meu passageiro. Faço jóinha e vou alguns metros adiante, final da alça, menos arriscado parar. Desço e abro o porta-malas, vem arrastando peso e diz que a mala vai no banco traseiro, digo que lugar de bagagens é no bagageiro. Resiste, digo a lei, perde uma estrela. Esperneia, digo a multa, perde outra estrela. Quando vou falar dos pontos na carteira e tirar a terceira estrela ele cede. Tem cara de cantor sertanejo, pergunto de onde vem, acabou de chegar de Goiás. Tem jeito e chapéu de Rio Negro, tamanho de Solimões. Volta a ficar com três estrelas porque é do interior. "Moço, por que arrastou a mala até aqui se podia ter chamado na rodoviária?". Desconversa e abre a porta, entra e faz cara de enfado. Peço que afivele o cinto de segurança, bufa, diz que na Serra das Lajes isso é frescura. Conto até cinco, respondo que não estamos em Itaberaí. Faz cara de surpresa, eu informo que conheço Goiás e sei que antes de virar "Rio das Pedras Brilhantes" aquilo tudo foi Curralinho. Afivela o cinto. Confirmo o destino, waze informa meia hora de viagem. Dou seta rumo a marginal, percebo que me olha de soslaio. Sujeito do campo tem manias, acho que peguei pesado, tento ser simpático e pergunto de Itaberaí - todo mundo gosta de gabar sua terrinha. Ele gaba, fala da chegada do abatedouro, fala da proliferação de granjas, fala que a cidade cresceu, fala que muita gente enricou, faz cara de orgulho e gaba que esta prosperando. Parabenizo e penso que merece quatro estrelas, não dá tempo... Subitamente empurra o banco todo para trás, deita o encosto e antes que eu possa falar 'uai' as botas estacionam no painel. Sem dar seta, jogo para a última pista da direita e freio. É suicídio parar na marginal tão bruscamente, mas não estou com medo de morrer, o sangue subiu e um véu desceu sobre o mundo... conto até dez: "por-favor-tire-os-pés-do-painel-e-levante-o-encosto-do-banco!" Assim mesmo, devagar e separando educadamente as palavras. Ele se altera, vira uma franga de chapéu, deixo cacarejar. Estou com cara de paisagem. O boiadeiro acha que intimidou e encerra o piti caipira estufando o peito. Conto até quatro, engrosso a voz e digo que se ele é de Curralinho eu sou de Ponta Grossa - os itaberinos odeiam isso, é praticamente uma declaração de guerra! Silêncio no carro. As botas descem, o encosto sobe. Penso que estamos conversados e acelero lentamente para retomar a viagem. Não estamos conversados, o moço esta profundamente ofendido: "você-é-muito in-su-por-tá-vel. Assim mesmo, separando as palavras e depois as sílabas do insuportável. Daqui pra frente só pode piorar. Decido encostar de vez, estou calmo, desço, abro o porta-malas, tiro a bagagem e mando o galizé descer. Resiste, perdeu todas as estrelas, bufa, mas desce. Pelo retrovisor vejo a miniatura de Sérgio Reis mexendo no celular, deve estar pedindo outro carro. O próximo motorista não vai entender como arrastou mala até a marginal... finalmente compreendo ele parado na alça de acesso. Periga ser expulso novamente!! Leva uma estrela, por mim seria menos cinco, depois vou reportar. Nessa toada será bloqueado antes de voltar pra sua terra!

Agradecimento: Rhenan Ulisses

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