Daí não toca e eu fico lá parado, sombra frondosa, parque municipal. A lei pediu, a Uber forneceu, eu retirei o adesivo no local e hora agendados e colei no para-brisa. Em áreas sem risco, porque em áreas de risco removo e guardo no porta-luvas. No entorno do parque é seguro, pessoas passeiam com seus totós, crianças pedalam, ralam joelhos, choram, riem, pedem água, salgadinho, pastel, pipoca, doce. Adolescentes marcaram rolezinho, exibem patins, crueldades, skates, crushes. Adultos pedalam, correm, andam, se arrastam como aquela gordinha... Ela veste malhas fitness coloridas que destoam entre si. Blusa verde limão, calça preta e laranja, fita de cabelo roxa, meias brancas e tênis rosa. É uma alegoria completada pelas bochechas vermelhas, a fronte suada, o ar ofegante e a audácia de enfiar a garrafinha sem água pelo meu vidro abaixado. Apoia cotovelos na porta, respira com dificuldade, apenas aponta o adesivo no para-brisa e pergunta se sou uber. Transpira, ofega, parece que vai desmaiar e não tira os olhos de mim aguardando resposta, confirmo que sim, sou uber. "Pode me levar para casa?" os olhos imploram, a linguagem corporal implora, eu fico alerta. Digo que não devo transportar passageiros fora do aplicativo. Sei lá, pode ser cilada. "Moça, o poder público está louco para encontrar bode, não tenho vocação para expiatório". Ela diz que não é fiscal de porra nenhuma, assim mesmo, blasfemando contra as autoridades constituídas. Fico olhando com pena, claro que vou ceder, mas preciso fazer charme. Ela pede por favor, indústria da multa é igual bandido, não pede por favor. "Estou sem celular. Maldita hora que resolvi correr". Praguejando assim, quem sou eu para negar carona. Pergunto o endereço, coloco no waze, é perto. Vamos lá. Desligo o aplicativo. Ela se joga no banco do carona. Pergunta se posso ligar o ar. Claro! Sol ardido fora da sombra frondosa, nem eu que deveria economizar enfrento esse calor sem ar ligado. Fecho os vidros. O ar frio ventila em velocidade máxima, a gordinha parece que recebe oxigênio puro, respira fundo, nos primeiros quinhentos metros as bochechas vão ficando rosadas, o suor na testa vai rareando, a respiração profunda vai amenizando, menos de um quilometro ela já sorri. Me chama de anjo, diz que é uma imbecil por cair na pilha de amigas: "Eu sempre fui gordinha, sempre me aceitei com uns quilinhos a mais, nunca me incomodei com as piadinhas, mas por causa de um 'homão-da-porra' que não está nem aí para mim entrei na pilha de emagrecer. Aluguei neurose das amigas. Burra! Que idiota eu sou!" parece realmente enfurecida consigo mesma. Não comento, em tempos de politicamente correto, boca fechada não compromete. Ela fecha os olhos, penso que vai chorar, se chorar choro junto. Sou solidário nessas coisas de lágrimas femininas, não posso ver mulher chorando que vou junto, abro as torneiras. Ela não chora, começa rir. Rir pode! "Eu tenho passado fome! Sabe o que é passar fome por um crush?" Eu rio com discrição, não deve ser engraçado nem para ela. "Fome..." Se perde nos pensamentos até chegarmos ao endereço final: "Moço, quanto você vai me cobrar?" eu não sou de explorar, mas enfio a faca: "Dez reais está bom?" ela diz que está ótimo, tira uma minúscula bolsinha não sei de onde, estende a nota e repete inúmeras vezes obrigado. Quando penso que vai descer ela pede: "Posso ficar mais dois minutinhos curtindo esse ar?" pode. Estamos na sombra do prédio, ali adiante sol ardido. Ligo o aplicativo, sem combinar fica subentendido que se tocar ela desce e eu vou lá buscar passageiro. Agradece, fecha os olhos, acho que só precisa se hidratar, tenho uma garrafinha de água intacta, ofereço e ela aceita. Devora os quinhentos emeéles numa talagada. Pergunta quanto é a água, digo que é cortesia – estou com remorso pelos dez reais, no aplicativo a corrida seria taxa mínima. Olha uns segundos para mim, não sei o que pensa, eu sei dos meus pensamentos, acho que é bonita, não digo nada, nem ela. Subitamente abre a porta, agradece e sai. Se tivesse que pontuar, daria cinco estrelas, apesar da mancha de suor no assento e no encosto do banco... O jeito é pegar pano e limpador no porta-malas. Não era cilada.
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