Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Aclimação. Sexta-feira de lollapalooza, o relógio marca vinte horas e vinte minutos, movimento está fraco, a vida está difícil. Cinco pessoas em frente ao portão, adultos, acenam quando estou encostando. Conversam com se fossem colegiais indo ao cinema, meia dezena de aposentadas, uma diz que esqueceu o remédio e outra pergunta se posso esperar um minutinho, claro que sim. Entra a primeira, no banco do carona, atrás de mim a porta abre e fecha duas vezes antes de entrar alguém. Do outro lado, a porta que abre para a calçada, permanece escancarada. A indecisa que estava atrás de mim desce, vai ajudar a amiga segurar a porta da calçada, as outras duas foram buscar o tal remédio. Só observo! Vou vetar a quinta passageira, mas nada de sofrer por antecipação, vou esperar voltarem e confirmar se pretendem mesmo viajar as cinco. Estão demorando, clico para iniciar a viagem, Rua Palestra Itália número 500. A viagem já começou faz alguns minutos e as duas não voltam com o tal remédio, a senhorinha ao meu lado reclama, "vamos perder o teatro". Imagino que seja o Teatro dentro do shopping, pergunto, ela confirma e começa a discorrer sobre sua paixão por teatro. Foi atriz por trinta e cinco anos, olho para o rosto dela, procuro traços conhecidos, nunca vi. Ela continua falando da 'grande arte' e nada das duas voltarem com o remédio. As duas que seguram a porta também reclamam a demora, acho que se passaram mais de dez minutos. A senhorinha ao meu lado solta uma onomatopeia que me parece palavrão, não entendo, parece japonês, pergunto na cara de pau ela confirma que é japonês "aprendi para rezar os mantras budistas, para invocar os espíritos, proteção dos antepassados, essas coisas..." foge do mérito e manda as duas agilizarem as outras amigas. Das duas que seguram a porta, uma solta e vai em busca das outras duas, agora são duas idosas comigo e três perdidas. Mais alguns minutos e nada. "Eu não peço mais nada para Deus, só que me livre desse carma" – solta a atriz "já tive muita fé, teve um tempo que nada dava certo na minha vida, fui para a igreja, orava, pagava dízimo, fazia jejum, esfolava o joelho de tanto orar, fiquei até com a boca mucha de tanto Pai-nosso, de tanto 'lamaia-samalacai-estepenaia' e nada de melhorar minha vida. Um dia abandonei a igreja e tudo começou a dar certo!" Não entendo por que a atriz está dizendo tudo isso, fico calado. Não gosto que debochem religiões, nenhuma religião! As três voltam, quatro delas se apertam no banco traseiro, são magérrimas, idosas esqueléticas, menos a atriz, ela é gordinha. Penso na multa, penso no horário para o teatro, dentro do carro silêncio absoluto, fico com pena e toco para a Vinte e Três de Maio sem falar nada. Antes das nove da noite o elevado ainda está aberto. A viagem é rápida, menos de meia hora. "Bem a tempo de pegar a peça" – comemora a atriz. As quatro senhorinhas falam entre si e ouço uma dizer quase clandestinamente: "não falei que ele trazia todas nós? Economizamos um Uber." outra voz quase cochichada emenda: "na volta a gente faz a mesma coisa!" Ouço risinhos, também sorrio por dentro. Danadinhas!
Nenhum comentário:
Postar um comentário