quinta-feira, 17 de maio de 2018

TODOS ACREDITAM NO FUTURO DA NAÇÃO

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Porta de galpão industrial, zona norte, dois barbudos, um com celular na mão, o outro uma mochila-maleta de rodinhas. Cara de sindicalistas a caminho de alguma confusão. Indo, porque se estivessem voltando de confusão as caras estariam com hematomas, ou os sovacos com pizzas de suor, ou não teria mais nenhuma maleta de rodinhas. Tenho um lado meio Sherlock, obrigado. E antes que alguém me chame de tucano ou bolsominion, aviso que minha ideologia é de esquerda. Posso criticar com isenção. Os sindicalistas falaram de Lula preso, falaram de cachaça, falaram de dinheiro, falaram de liberdade, falaram de opressão, falaram de política, falaram novamente em dinheiro, falaram em impunidade, falaram em direitos, falaram em liberdade de expressão (só para eles), a cada asneira que vomitavam pediam minha opinião. Queriam a todo custo minha anuência e cumplicidade, eu respondia com onomatopeias: "ôbixoburro" ou "tomanucu" ou "issaí"... porque eu sou driver da paz! Decididamente estavam a caminho de confusão. "Quanto de dinheiro cabe na maletinha?" De ilação a incômodo a onomatopeia, a corrida até que foi rápida, durou uns dez minutos. Endereço final em frente outro galpão, portão de aço fechado, clube da luta - pensei. Quem leva maleta de rodinhas a um clube da luta? Antes que eu encerrasse o sem maleta perguntou as condições de trabalho via aplicativo. Eu querendo fechar a conta e acelerar, disse distraidamente que não existe relação de trabalho: "sou prestador de serviços e a uber só faz a ponte com o usuário"... pra quê? "Ó-Meu-Deus! Por que Tú me permitiste pronunciar mais que as onomatopeias da salvação?" Os sindicalistas foram possuídos! Quiseram saber como poderiam ajudar a categoria dos drivers, orientei: "No facebook, entre no Grupo Uber Da Depressão". Encerrei a corrida, agradeci pela oportunidade, ignoraram, veio convite para fazer parte da diretoria do sindicato, sugeri: "No facebook, entre no Grupo UDD e convide os administradores". Agradeci pela vigésima vez e cliquei nas cinco estrelinhas, pediram para eu anotasse o endereço do sindicato. "Estou sem caneta, no facebook, entre no Grupo UDD e deixe convite aberto, são milhares de membros". Os quatro olhinhos brilharam quando falei milhares de membros. "Ó-Meu-Deus! Por que Tu não me devolves as onomatopeias da salvação?". Um deles estava descendo, parou, ficou segurando a porta. O outro fez que ia descer também, abriu a porta atrás de mim, deixou a perna pra fora, a maletinha no colo, a mão no encosto do meu banco, desfilou a série de vantagens na sindicalização. Bordões batidos, união faz a força, juntos somos mais, trabalho de formiguinhas, unidos venceremos, fora Temer, Lula lá. Mentalmente eu rebatendo cada bordão, união faz açúcar, juntos somos imbecis, formigas não têm salários, unidos levaremos balas de borrachas, fora Temer, Lula continue lá... lá na cadeia. A cada bordão eu verbalizava "Grato, tenha uma boa tarde" menos no Fora Temer, aí eu verbalizei Fora Temer também. Após agradecer duzentas vezes, expliquei a apatia culpando meu 'espírito guerreiro' que foi domado nos anos de chumbo. Olharam consternados o meu jeitão de coxinha – na hora fiz cara de coxinha. Arrematei assumindo que nestes anos todos só me permiti protestar virtualmente, e foi uma única vez, contra o Collor. Fiz cara de Fora-Collor. Olharam com pena e soltaram minha porta. O portão de aço abriu sem que batessem. Sinistro. Desmarquei as cinco estrelinhas. Dei duas estrelas porque estavam em dois, uma pra cada um – pra não virar briga. Encerrei de vez. Estava exausto, duas pizzas nos sovacos. Só faltavam os hematomas na cara.

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