Daí chama e vou lá buscar o passageiro. Meu carro está chutado pelo último usuário que a Uber colocou em meu caminho, já se manifestou avisando que não vai ressarcir o prejuízo, estou boicotando, vou atender apenas outros aplicativos até passar a raiva. O bom do capitalismo é o livre mercado, a concorrência, as opções, existe o 99pop da depressão, o Cabifay da depressão e... só trabalho estes. Então chego ao endereço de origem. Mulher com uma criança e uma adolescente. Abaixo o vidro, confirmo o nome e desço. Tenho cadeirinha no porta-malas, ofereço. A mãe faz cara de entojo, abre a bolsa e procura um pano, acho que é fralda, forra o assento para o menino sem dizer nada. Todos acomodados? Ela não forrou o banco onde está sentada "mil outros traseiros já sentaram aí" - só penso, não falo! Confirmo endereço de destino, quase dez quilômetros. Primeiros minutos de viagem ela pede que aumente o ar condicionado: "meu filho sente muito calor." Ouço a criança cochichar: "mas eu não estou com calor!" A adolescente ri. Eu rio por dentro e aumento a potência do gelo. Outros minutos de viagem a mulher pede: "terminando essa música você pode desligar o rádio?" Toca Whats'UP, um clássico na voz da pequena Linda Perry. Nos últimos acordes "trying to get up that great big hill of hope, for a destination" desligo e ficamos em silêncio. Pouco depois a mãe dá uma bronca: "para de cutucar o nariz que vai dar pereba!". Uns segundo de silêncio: "mãe, o que é pereba?" "São bolinhas de bactérias que dá em quem fica cutucando o nariz." Eu gosto da explicação. "Mãe, as bactérias ficam no meu nariz?" - "Ficam na caquinha, você cutuca e elas se espalham formando feridas no nariz e na boca". Pausa. O silêncio é longo. Quando o menino volta a falar a diversão começa: "mãe, se eu comer a caquinha também vai dar pereba?" A mocinha gargalha, eu rio modestamente, a mãe se desespera: "Não pode comer caquinha! Vai dar pereba dentro da sua boca!" Pausa novamente, o menino parece que nem respira de medo, mas a curiosidade retorna: "Mãe, como que tira a pereba da minha boca?" - "Tem que tomar remédio" - "O remédio é doce?" - "Não, é remédio ruim" - "Como você sabe que é ruim? Você já teve pereba?" A mãe percebe que caiu na armadilha e desconversa: "Tira o pé do banco, o moço vai brigar com você". Eu realmente poderia brigar, mas não hoje, não agora, não com esse menino. Ele reclama que está muito frio, pelo retrovisor consulto os olhos da mãe - que ainda está com cara de entojo, mas não dá anuência para baixar a potencia do ar. O silêncio volta, dirijo e a mente voa: “Fungos se proliferam no frio? Bactérias preferem o calor? Vírus tanto faz?" não falo nada. No waze falta pouco para terminar a viagem, o menino retoma: "Mãe, se cutucar esse machucado aqui também dá pereba?" - deve ser no braço ou na perna, não tenho como ver. "Não. Mas pare de mexer que já está sarando, se ficar cutucando vai sangrar." Nem bem termina de falar o menino comemora: "Olha mãe, saiu a casquinha!". Ela olha e também comemora: “Sarou, filho! Sarou!! Só não fique esfregando que a pele ainda está fraquinha”. Rua de destino. Verifico a numeração e estaciono, nenhuma porta se abriu ainda quando ouço: "Mãe, se comer a casquinha do machucado também dá pereba?" O tom demonstra irritação: "Cadê a casquinha? Filho, cadê a casquinha do seu machucado??" O menino não responde, faz cara de culpado, a mocinha gargalha, eu também. A mãe me fuzila com os olhos, sorte que neste aplicativo a avaliação é flexível. Ela sai com a criança no colo e esquece a fralda. Buzino, só a adolescente olha. Mostro a fralda e ela volta para buscar, ainda ri. Eu também.
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