quinta-feira, 17 de maio de 2018

UM TANTO QUANTO MÁSCULO

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Primeiro de maio, não sei por que inventei de trabalhar. É dia de trabalhador descansar... lembrei, boleto vencendo dia dois de maio. Dois rapazes em frente ao endereço de origem, um deles franzino, o outro bombadão que faz questão de exibir os músculos. OK, está calor. Justifica regata. Justifica bermuda. Justifica pose de Johnny Bravo. Desnecessário roupa toda coladinha como se fosse segunda pele. O franzino confirma nome e destino, parece chateado com alguma coisa, evita frases, usa onomatopeias para responder ao bombado que fica puxando assunto. Ar ligado, cidade vazia, trânsito livre, mamonas assassinas no rádio. Após umas dez frases começando com "Cara..." o franzino reclama em alto e bom som: "Odeio quando você me chama de cara". O bombado provoca: "Qual é cara, sempre te chamei de cara!" o outro retruca que nunca gostou. Começam a discutir baixinho, fim das onomatopeias. Rolando frases completas. Parece que exibicionismo gratuito machuca. O outro parou de dizer "cara" mas mantém certo deboche. A discussão avança, está rolando uma DR no banco traseiro. Mamonas assassinas não ajuda: "Um tanto quanto másculo, ai com M maiúsculo, vejam só os meus músculos, que com amor cultivei..." Desligo o rádio, não quero piorar a situação. Sem música ambiente a voz do bombadão parece mais grossa, mais intimidadora, o franzino não recua, argumenta ciúmes, desenterra situações, descarrega tristezas. O outro debocha cada mágoa verbalizada. A tensão aumenta, o schwarzenegger do agreste tenta ter razão no grito, acha que ganha a discussão com ameaças. A expressão 'porrada na cara' me faz frear. Encosto e aviso: "No meu carro só eu dou porrada na cara". Os dois ficam calados, pergunto se posso continuar a viagem, o franzino sabe que não é com ele, repito a pergunta olhando pelo retrovisor. Não dá para ver a cara do bombado, se ele engrossar estou ferrado, vai me enfiar a mão na cara, vai fazer eu engolir minha audácia e alguns dentes. Isso se eu não voar pelo para-brisa. Não demonstro medo, sei que sou idiota, mas agora não posso vacilar. Viro o corpo, mantenho o cenho franzido, seguro o tranco e encaro o bombado sem piscar. Minha cara de mau dá certo, tenho anuência para continuar. Vamos calados o resto da viagem. Entrego a dupla, dou três estrelas pelo mini-barraco. Procuro uma vaga, estaciono e fico esperando tocar chamada. Quinze minutos depois ainda estou parado, o dia está fraco. Final de feriadão longe de aeroporto e rodoviária não rende. Resolvo comer um salgadinho no boteco da esquina, desço, na TV é começo de futebol, fico por ali mastigando esfiha salgada. Intervalo. Dá sede, a boca pede um chopp, peço um suco de laranja, lá se vai todo o lucro do dia. Fim de jogo. Volto para o carro, ligo o aplicativo e pouco depois toca. Vou lá buscar o passageiro. Uma volta no quarteirão, dou seta para encostar no endereço de origem, avisto o bombadão com mochila e mala. No rádio mamonas faz graça: "Oh, Manoel, olha cá como eu estou, tu não imaginas como eu estou sofrendo..." Minha audácia tem limite! Aborto a parada, acelero e passo direto. Na esquina cancelo sem cobrar do usuário.

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