Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Após vinte minutos estacionado
rezando para tocar, glorifico sentado, a chamada é select! Paga mais, merreca,
porém cada real conta. Agradeço aos céus e começo outra reza; não cancelarem
porque é viagem longa, mais de quarenta. Vai salvar a hora, talvez salve minha tarde!
Pompéia, bairro tranquilo, nem a ladeira para chegar ao endereço inicial tira
minha alegria. Após dois minutos esperando envio mensagem gentil: "Bom dia. Estou na rua tal em frente ao número tal, conforme
sua solicitação". Vai que chamaram por localização? Sempre dá endereço
errado... Resposta: "Por favor, aguarde mais uns cinco minutos". Claro que vou
aguardar! Respondo apenas "OK". Não vou ficar
exagerando na gentileza, pode assustar! Pouco depois saem duas mulheres, duas
malas, além das bolsas. Desço, acomodo a bagagem, a jovem elogia o tamanho do
meu porta-malas. Mãe e filha. A mãe está visivelmente eufórica, pergunta se a
filha não esqueceu nada umas dezoito vezes enquanto tento confirmar nome e
destino, Aeroporto de Guarulhos - Olha que benção! Numa quarta-feira, quatorze
horas, sem chuva? Dedo de Deus no assunto. Não falam comigo, matraqueiam entre
elas, entendo que só a filha vai viajar, a mãe vai voltar para a Pompéia...
Sabe que sonho de motorista de aplicativo é fazer viagem longa no bate-e-volta?
Não sabe? Pois então, a gente trabalha não é porque precisa, a gente dirige
porque gosta! Gosta de pagar boleto em dia. E viagem longa no bate-volta rende.
Dou um jeito de puxar conversa: "No waze está marcando mais vinte e cinco
minutos de viagem, qual o horário do voo?". A jovem responde que está
tranquilo, tem tempo de sobra. A mãe diz que só vai deixar a filha e retorna.
Tudo que eu queria ouvir! Mas ainda não garanti a volta, conduzo a conversa até
sugerir que eu posso aguardar elas se despedirem. Ela diz que vai demorar mais
ou menos meia hora no aeroporto antes de voltar. Dou meu cartão e combinamos ela
me ligar. A mãe agradece como seu eu estivesse fazendo favor. “Aceito pagamento
no débito para facilitar.” A mãe acredita que Deus é Pai, eu também acredito.
Descarrego as malas, aviso que volto para o mesmo lugar assim que ela ligar. Vou
para o bolsão de Guarulhos, primeira vez que faço isso. Não é fácil achar o
estacionamento, taxista que dá o roteiro. Sempre que tenho viagem para Cumbica
prefiro voltar até inicio de Guarulhos e trabalhar por lá. Penso que dá mais
retorno que ficar na fila por horas. Bolsão, encontro vários colegas motoristas,
de início não interagem, pior que sou tímido, só falo com quem fala comigo. Mas
vou lá, peço um café. Nem tomo café. Ouço metade de uma conversa, dois riem,
outro comenta eu rio também, uns quatro colegas me olham de cima a baixo, não
me enxotam como se eu fosse lavador de para-brisa, então vou ficando e rindo
dos casos, quase todos verdadeiros, até finalmente entender a dinâmica...
Invento uma história na hora, sou um deles, quer dizer, um de nós! O mais
falante pergunta meu lugar na fila, disfarço, outro me oferece pão de queijo, o
terceiro pergunta se meu carro tem GNV, dois deles me colocam em grupo de
whattsapp, somos irmãos, eles mais ricos, tiram o triplo que eu por
semana. Mas estamos juntos! Quase íntimos, até penso pedir um dinheiro
emprestado. Só fazem viagens longas e rentáveis, fico pensando um valor
razoável de empréstimo. Não dá tempo, meu telefone toca... atendo e me despeço.
Diigo que vou buscar passageiro, bate-volta, retorno para a capital. O café
ainda está intacto, não bebi. Todos me encaram, estou com cara de culpado.
Silêncio geral, tenho a impressão que estou traindo alguma causa, fico alerta,
encabulado de furar a fila. Vou caminhando de costas, olho no grupo, entro no
carro e saio fugido. Mentira, estou inventando. Desejaram boa viagem, tapinha
nas costas, felizes por mim. A passageira aguarda no local combinado, vem
falando o caminho todo, contando maravilhas sobre a filha, do quanto ela é
genial, responsável, humana, estudiosa, pra casar. Novamente na Pompéia fico
estacionado, meia hora que ninguém chama, dentro do carro estou triste,
sozinho, ninguém para contar mentiras... Resolvo escrever. Um dia vou ganhar
tanto quanto os irmãos lá em Guarulhos.
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