segunda-feira, 14 de maio de 2018

SENHORES! SENHORES! SENHORES!

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Dia do meu rodízio da placa, mas eu gosto de dirigir, gosto de trabalhar, gosto de pagar os boletos em dia. Ligo o aplicativo as dez em ponto e logo toca. Origem, Hugo D'Antola, polícia federal. Lapa. São Paulo. Sujeito entra mudo e sai calado, destino: aeroporto de Congonhas. Som ambiente, ar condicionado, marginal Tietê livre, Bandeirantes tranquila, tudo contribuiu e o passageiro ganha cinco estrelas no final. Só abriu a boca para dizer obrigado. Gosto disso! Gosto quando o dia começa bem. Estou acionando seta para sair quando toca, no desembarque. Lá vou eu, dar a volta lá na pequepê já que esse aeroporto é inimigo do motorista, inimigo da economia de tempo, amigo do consumo de combustível... custava inverter e o embarque ficar aqui no fim das plataformas o desembarque lá na outra ponta? A gente chega ao aeroporto de Congonhas, passa pela plataforma de desembarque, enfrenta toda muvuca de carros, passa taxis, passa vans, passa todo o auê de gente que chega estressada de voos, passa a curva da policia federal e só depois da área restrita começa a plataforma de embarque. Na plataforma estaciona rapidamente para não levar multa, deixa o passageiro e se tiver sorte de ser chamado no aplicativo, faz o que estou fazendo agora, dá uma volta monstro para retornar lá na plataforma de desembarque. A gente pega tudo novamente, a muvuca de carros, os táxis, as vans, o auê de gente estressada de voo, encontra um buraco para embicar o carro e fica rezando para não levar multa por estar atravessado, já que é impossível estacionar corretamente. O dia tinha começado tão bem! Enquanto faço a volta monstro ligo, confirmo a localização exata do passageiro, a instrução dele: "tô embaixo da segunda placa". Vou lá procurar placas na plataforma de desembarque. Tem várias placas. Umas de sinalização do aeroporto e outras de sinalização de transito, quais ele contou? Contou todas, está embaixo da primeira que sinaliza desembarque, antes dela tem a placa de 'proibido parar e estacionar'. É cada ponto de referência! Embico o carro, torcendo para não ser visto pelo agente de trânsito, o passageiro me identifica e vem, caminhando lentamente, telefone toca ele para e atende, fica falando a cinco metros da minha porta. Eu xingo mentalmente: "corre desgraça! vou levar multa sua anta". Desliga. Entra, não tem mala, apenas maleta-mochila de rodinhas. Coloca no banco. Nem ligo, só quero sair da zona de multas. Confirmo nome e destino. Reconheço, ex-atual-futuro-político envolvido até as tampas com desvios de verbas. Fico quieto, só dirijo, mas ele puxa conversa: "Tá com cara de chuva, né?" Ok. Vou ser simpático, se eu grito Fora-Temer, periga ter que sair no tapa: "Se Deus quiser! Afinal lavei o carro hoje e se não chover não tem graça". Só porque dei trela ele tenta trolar, ou então é a tal imunidade parlamentar, sabe que não vai levar no meio da fuça: "Nem parece que lavou..." Oi? É ISSO MESMO? - só penso, indignado com o fidumaégua, mas tentando manter a cara de paisagem. É esperto, percebe que não agradou e tenta consertar: "Essa poluição toma conta de tudo tão rápido, né?" Levantou a bola na grande área, dou de voleio: "Verdade, sujeira toma conta de tudo, inclusive da moral dos políticos, NÉ?" Dou ênfase no "né" olhando pelo retrovisor. Não responde, finge cuidar dos papéis que tirou da mochila. O resto da viagem não abre a boca. Pena, queria só um pio para gritar 'Fora-Temer' e depois fazer descer no meio da Rubem Berta/Vinte e três de maio. Pede para contornar a ALESP e entrar no estacionamento, desce sem agradecer, sem desejar bom dia, sem oferecer propina. Achei que esses tipos só andassem de carro oficial, gastando dinheiro nosso com motorista particular. Levou uma estrelinha! Nunca vai levar meu voto.

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