Tem noite que satanás passeia pelo mundo. Aplicativo toca fora da área de risco, eu confio e vou buscar o passageiro que só o aplicativo sabe quem é. Eu não tenho foto, não tenho CPF e nem a profissão do usuário. Apenas um nome e um endereço! Chego ao local informado e tem seis pessoas paradas na calçada. Três mulheres, dois homens e uma criança. Uma senhora com visível dificuldade motora, precisa de ajuda de um dos homens para entrar no carro. No banco do carona o usuário que solicitou, informo que posso transportar apenas quatro pessoas por viagem. Ele reclama, porém desce e fica com uma das mulheres. Faço a viagem transportando um homem, duas mulheres e a criança. Dois mil e oitocentos metros de viagem, beira da Brasilândia, pagamento em dinheiro. Chego ao destino e percebo que não tem número na solicitação de viagem. Pergunto qual é a casa, nenhum dos passageiros sabe. Peço que liguem para o solicitante pedindo a informação, ninguém a bordo tem telefone. Pergunto quem vai pagar a viagem, ninguém a bordo tem dinheiro. Sinto cheiro e sabor de golpe. Usuário não coloca informações completas, não paga, não tenho onde reclamar. Não posso provar que é golpe, manobro o carro e retorno ao endereço de origem, encontro o casal que ficou. Informo que não tinha número no endereço e nem dinheiro, por isso trouxe todos de volta. O usuário que o aplicativo colocou no meu caminho se altera, diz que eu deveria ter deixado todos lá na rua. Que eu não estava considerando a senhora deficiente, que eu não estava considerando a criança, que eu estava me achando só por causa do carro de merda. Socou meu carro. Reclamei. Falou que não ia pagar a viagem, que ia me quebrar se eu não saísse da frente dele. Chutou meu carro. Desci. Os dois homens vieram pra cima, mas viram que sou grande e feio, vacilaram. A mulher entrou na minha frente pedindo "pelo amor de Deus vai embora". O desespero dela me acendeu sinal de alerta, um dos homens chutou minha perna e recuou. A mulher me empurrando para o carro. Liguei 190. Informei agressão física e material, todos perceberam que a polícia estava a caminho e saíram, desceram a rua correndo. Até a mulher da dificuldade motora estava correndo. Antes de sumir na esquina o usuário que o aplicativo colocou em meu caminho, em meu carro, berrou que ia me achar e eu estaria "F-O-D-I-D-O". Separou cada letra em maiúsculas. A mulher com a criança no colo gritou com ele, puxou pelo braço e sumiram. Polícia não veio. Eu aguardei. Vizinhos finalmente saíram, olharam, não comentaram. Tinham todos aquele olhar de pássaro engaiolado. Saí do local e parei no primeiro posto, local iluminado, fiz relatório, fiz fotos, enviei tudo para a Uber. Solicitei ressarcimento dos prejuízos, a resposta veio rápida: "estamos atuando e entraremos em contato". Enquanto o aplicativo atua, o usuário agressor está impune, provavelmente chamando outro motorista. Não posso dizer que era golpe, mas teve jeito, teve cara, teve cheiro de golpe... Tudo para não pagar nove reais? Desliguei o aplicativo e estou em casa, sensação de impotência. O carro esmurrado e chutado violentamente está garagem, satanás está nas ruas. Altas Horas na TV. Noite deprimente.
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