Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Elis me encanta no rádio: 'Caía a tarde feito um viaduto'. Lá na frente um senhor com cara de distinto, terno e gravata, não é um bêbado como canta a música, falta o chapéu-côco. Faz um gesto com o braço, quase uma irreverência-mil, se identificando como meu próximo passageiro. Paro de maneira a facilitar seu acesso ao banco traseiro. Ele não aceita minha gentileza, com dois passos alcança a porta do carona e entra. Ajusta o cinto por cima do paletó e pergunta: "tem balinha?". Não senhor, não tenho balinha. Confirmo nome e endereço destino. Ele fica mudo, eu tenho o ímpeto de me desculpar por não ter balinhas, como se fosse uma falha grave não ter balinhas. O waze informa seis minutos de viagem, só até a estação do metrô. O constrangimento será rápido e já estou sabendo, não vou receber cinco estrelas. Dirijo relembrando o meio do dia de hoje, a criança entrou, nem bem pisou meu banco com seus sapatos infantis, soltou a pérola: "tem balinha?". Não tinha balinha e continuo não tendo balinhas! A mãe reclamou que outros motoristas tinham balinhas, agora quase nenhum tem balinha e o filho se acostumou a ganhar balinha já que diariamente vai e volta da escola de uber. Eu não me desculpei por não ter balinha. O menino fez birra, esperneou, chutou meu banco, aborreceu a mãe e levei poucas estrelas por não ter balinha. Custava ela ter balinhas para o próprio filho? Dei três estrelas, antecipando o chumbo trocado. Elis arremata meus pensamentos: 'Chora a nossa pátria, mãe gentil / Choram Marias e Clarices no solo do Brasil'. Minha nota está baixando, acho melhor comprar algumas balinhas. O equilibrista sem chapéu-côco está mudo ao meu lado. Está com cara de quatro estrelas? Fim da viagem, ele desce sem dizer adeus. Elis Regina também finaliza participação: 'Azar, a esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista tem que continuar'. Eu dou quatro estrelas, precaução, nunca vem cinco estrelas após o passageiro pedir água ou balinha, ou pra mudar de rádio, ou ligar o ar, ou desligar o ar, ou mudar a rota, ou questionar rota do waze, ou... qualquer questionamento do passageiro vai influenciar nas estrelas. Pisou no coco do cachorro ao descer? Culpa do motorista. Durante o trajeto a sogra ligou que vem pro final de semana? Azar do motorista. Criança vomitou no banco? As estrelas do motorista dançam. Na calçada um camelô de guloseimas, estou considerando descer e pegar umas balinhas quando toca novamente, nem preciso me mover. Mocinha saindo do metrô, ainda fora do carro pergunta meu nome. Digo o meu nome e também o dela, sente segurança na confirmação, abre a porta e senta atrás do carona. Confirmo o endereço destino e ela ignora com uma pergunta: 'Por acaso o senhor tem balinha?". Acho que minha cara responde porque ela emenda: "Tudo bem, não é importante". É sim mocinha, é importante eu já saber das minhas estrelas - só penso! Desço e vou no camelô: "dá cinco reais de balinhas". Volto sorrindo para o carro e ofereço balinhas, ela me olha com estranheza, como se estivesse sofrendo assédio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário