segunda-feira, 14 de maio de 2018

ESSA ONDA QUE TU TIRA QUAL É?


Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Porta de escola, já entram tocando o terror, no melhor estilo sobrinhos do Donald. Três pestinhas cursando ensino médio. Sentam no banco de trás e começam com as perguntas básicas: Tem balinha? Gosta de ser uber? Quanto tempo dirige uber? O carro é próprio ou da uber? Além de dirigir uber também trabalha? Uber dá dinheiro? Uber não cansa? Uber dá dor nas costas? O motorista uber peidou? Dirijo e respondo ao trio, Huguinho, Zezinho e Luizinho! No waze ainda faltam quatro quilômetros de viagem. Exageram sobre o futum flatuloso, ameaço expulsar todos do meu carro. Huguinho assume o pum e pede desculpas, leva cascudo dos outros dois. Eu também daria se não fossem os boletos vencendo. Pedem água. Pedem álcool gel. Pedem Wi-fi. Pedem música. Pedem para sacanear, já avisei que não ofereço nada disso. “Nem balinha tio?” Nem balinha. Você ganha bem ou não? Gosta de ser uber? Vizinho do meu avô disse que tira vinte mil por mês na uber... Devem perturbar motorista todos os dias. Cada qual vai descer num local diferente. Búffalo Soldier tocando no rádio... começam a perguntar se tenho erva, bolinha, pó, catuaba, se tomo a azulzinha. Sou promovido de tio para avô. É perigoso dirigir uber a noite? Gosta ou não de ser uber? Na esquina tem monturo de lixo pegando fogo, semáforo fecha a fumaça chega e a coincidência vira outra perturbação "não tem balinha porque comeu tudo na última larica". Bob Marley encerra participação, sinal abre e a fumaceira fica para trás. Luizinho é o primeiro a descer, deixa cinco reais e ameaça: "na próxima se não tiver balinhas vou te dar só uma estrela". Respondo que espero nunca mais vê-lo. Mostra o celular, insinua diminuir minha nota e avisa que estou em suas mãos. Ouço um berro debochado, é Huguinho com a cabeça para fora durante minha manobra, dou bronca, sério, se acontece algo sou o único culpado. Pede desculpas outra vez, aviso que na terceira falta vai ter que descer. Zezinho fala ao telefone, pergunta se pode mudar o trajeto "só dois quarteirões". Peço que mude no aplicativo, reclama que pediram no celular do que desceu. "vai dar rolo - penso". Huguinho não quer desviar o caminho, quer chegar logo em casa. Discutem, os argumentos vão de fome a pum represado. Entrego primeiro o peidorreiro, ele também deixa cinco reais. Zezinho reclama qualquer coisa com ele e fecha a porta. Sozinho não tem assunto, mexe no celular, por precaução avisa o amigo que vai alterar endereço, mudo a rota no waze. Ficamos em silêncio até finalizar a corrida. Doze reais e alguma coisa, ele também me entrega cinco reais, agradece e bate a porta. Aceno um tchau... "Sim, é cansativo!" respondo mentalmente. Dou três estrelas, uma para cada sobrinho do pato. São divertidos, mas depois de oito horas no volante, essa dor nas costas...

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