Daí toca e vou lá buscar o passageiro. O endereço mostra esquina com
famosa avenida, área nobre. Mas isso não quer dizer nada, independente de onde
esteja e para onde vá o passageiro tanto pode ser um entojo, como também pode
ser companhia agradável. Tem de tudo. O waze me leva pra esquina da avenida e
confirmo chegada. Recebo mensagem: "estou esperando no
número tal da rua tal". A placa de esquina diz que a rua é a solicitada e eu confiro
a numeração, deve ser a segunda casa virando a esquina, mas é contramão.
Informo via mensagem: "estou na esquina da rua tal com a avenida chique". A mensagem
retruca em seguida, "prefiro que estacione exatamente em frente ao número informado". Vai ser um
entojo, decido mentalmente. Dou a volta, desço a rua termina numa bifurcação,
subir é contramão e meu sentido de pontos cardeais diz que estou me
distanciando da passageira. Não estou feliz! Penso em cancelar, mas não sou
disso. Começo a imaginar a megera, 'deve ser uma patricinha folgada', 'a
Cinderela usa sapatinhos de cristal', 'a dondoca não pode andar vinte metros
até a esquina da avenida?'... Começo a pegar ranço sem nem conhecer, faltam
três quarteirões, acelero chamando de ruminante pra cima! Nos últimos metros
resolvo contar até dez. Não funciona, chego diante do número ainda espumando
ódio, mas exibindo sorriso chofer-profissional. Também sou filho de Deus e
preciso das cinco estrelinhas! O portão abre e a primeira coisa que vejo é o
cachorro, labrador, ou equivalente. Depois a alça e só então a mulher. O
sorriso profissional vira um esgar de constrangimento. Mais que depressa
desligo o motor, desço e abro a porta. Pergunto se ela precisa de ajuda.
"Só puxe o banco do carona o máximo que puder, o 'Dodi" se acomoda no
assoalho". Faço o que ela pede, entram, fecho a porta. Antes de começar a
viagem confirmo nome e destino. A moça pergunta se tenho mais de um metro e
oitenta de altura, digo que "tenho um e noventa". Ela diz que
consegue perceber pela distância entre o banco que ocupa e o meu, parece que
sorri, não consigo ver pelo retrovisor. Quatro quilômetros de viagem, ela
conversa comigo sobre amenidades, simpática, fico com peso na consciência.
Resolvo ser honesto. Peço desculpas por ter pensado que era uma folgada. Ela ri
e diz que as vezes se acha folgada mesmo! No destino abro a porta para ela
descer. O cão guia não se dá ao trabalho de perceber que existo, não brinco com
ele - nem ele comigo. Vai ver farejou meus sentimentos de ódio na chegada.
Antes de sair conduzindo sua dona vira o focinho para mim, dá uma única olhada...
automaticamente sorrio e aceno tchau, de imediato me sinto um tolo. O cão nem
tchuns, vira a cara e vai, deve se achar mais profissional que eu.
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