terça-feira, 15 de maio de 2018

PORQUE EU SOU É HOMEM

Daí toca e vou lá buscar o passageiro, está no quarteirão de baixo. Novamente uber, novamente pool, novamente perturbação e depressão. Chácara Santo Antônio, casarões, rua vazia, na porta uma guarita de segurança entre grandes árvores e muito verde. O sujeito é jovem, bêbado ou drogado, a fala e o riso uma oitava acima. Antes de confirmar o destino toca segundo passageiro, vou. Sábado de aleluia, ô glória, distante só dois quarteirões. É mulher. Outro casarão, outro muro de seis metros de altura com várias câmeras de monitoramento. Portão abre, uma adolescente sai, nem acionei viagem e o portão abre novamente. Mulher alta, magra, bonita. Olha para mim como se decorasse meus traços para um futuro retrato-falado, na polícia. Percebe o rapaz no banco de trás, abaixa o corpo, olha fixamente e pergunta: "tem dois homens no carro?". A mocinha já abriu a porta, olha e confirma que sim, tem outro passageiro no banco de trás. A mulher tem um instante de indecisão, parece que não compreende. A confusão mental dura somente alguns instantes, ela puxa o braço da moça: “você não vai entrar neste carro!” Eu só dirijo, não tenho que reagir a nada que aconteça fora do meu carro, a adolescente sim, reage: "Mããeee!! É carro compartilhado, é normal." Pode ser normal na cabeça jovem, na cabeça adulta é anormal: "Filha você não vai entrar num carro com dois homens desconhecidos". O bêbado abaixa o vidro e participa da conversa: "Dona, é uber pool, de boas, eu vou para o mesmo rumo que sua filha" ele ri após a frase. "Dois homens!" – a mulher dá ênfase aos dois homens e repete: "DOIS HOMENS!!" Se o problema é o excesso de macho, o drogado ri e aponta para mim: "ele não é homem, é só motorista do uber." Estou aqui para dirigir, não tenho que provar minha masculinidade a ninguém, fico quieto. A mulher olha para meu rosto, já decorou os traços, mas não vai se arriscar no retrato-falado: "moço, pode ir embora, minha filha não vai com vocês" - "MÃÃEEE!!!" - "Cancela esse negócio que eu vou te levar!" Chamar meu trabalho de ‘esse negócio’ até poderia ofender, mas eu sou só motorista de Uber. “E então?” pergunto aguardando uma atitude da mocinha. Ela não tem opção, fisionomia de quem está morta de vergonha alheia, fecha a porta e cancela. Ganhei a taxa de cancelamento. A mulher empurra a filha, faz barreira com o corpo para entrar na casa. O bêbado gargalha joelhando o banco do carona. Dou seta e saio. O drogado não para de dar tapas no encosto do banco. Uma vontade de malhar esse Judas, a frase reverberando na mente "ele não é homem" meu porta-malas cabe até três corpos "é só motorista do uber" desacelero, encosto e aviso: "se não se comportar vai sobrar pra você". Ele sossega, eu desativo novas solicitações e dirijo. Só motorista.

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