Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Sujeito entra sorrindo, ocupa o banco do carona e cumprimenta. Negro, cabelo raspado, forte, gosta de mostrar os dentes. Tenho a impressão que já vi em algum lugar. Deve ser ex-jogador. Confirmo o endereço, vou para a periferia, ainda é dia e não me preocupo, o mal ronda só quando escurece. Conversa vai, não é ex-jogador. Conversa vem, não é pagodeiro. Ele pergunta de onde me conhece, respondo com pergunta "você é do spc/serasa?". Sorri com todos os dentes, abre o aplicativo, lê meu nome em voz alta e pergunta se sou filho do pastor. Reconheço! Fomos amigos de berço, a mãe dele cuidava de mim aos três anos de idade. Adolescemos vizinhos e perdemos contato ao entrar na vida adulta. Vim para a capital faz trinta anos, ele está a cara do pai e foi daí que eu lembrava. Meu Negão! Meu negão era o pai, motorista do laticínio, saia de madrugada recolhendo leite nas fazendas. Voltava pela hora do almoço, eu menino ouvia a babá dizer "meu negão chegou" ou "meu negão está atrasado" ou "vamos comer que meu negão vai demorar" e de tanto ouvir achei que o pai de meu amigo era "meu negão" para todos. Um dia, por um motivo já esquecido, chamei o homem de "meu negão" e virou anedota. Pegou o apelido, Meu Negão. Relembro essa história e meu passageiro entristece os olhos, esconde os dentes. Meu Negão se foi. É recente. O ar está ligado, parece mais frio com a tristeza dentro do carro. Um minuto de silêncio e os dentes voltam a aparecer para dizer de filhos. Estamos perto do destino, convida para descer, aceito e conheço a família. Lembramos outras histórias, outras vidas, outros tempos. A viagem ao passado faz esquecer as horas, a tarde se foi e a noite chegou. Na despedida um abraço demorado, são trinta anos. Ligo o carro e faço aceno, deixo no portão meu irmão de berço com a filha. Na garganta um nó. Vamos nos visitar... Na esquina eu paro, não penso que é noite, não penso no mal que está a espreita, sinto urgência em compartilhar: "mãe, sabia que o Meu Negão morreu?" do outro lado da linha ela diz que sabia. Reclamo: "ninguém me avisou?". "Uai, achei que você nem se lembrava dele" pelo tom da voz ela quase se desculpa, me comove mais ainda "não lembrava mãe... mas lembrei". O nó da garganta sobe e embaça os olhos.
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