segunda-feira, 14 de maio de 2018

NÃO QUERO MAIS ANDAR NA CONTRAMÃO

Dai toca e vou lá buscar o passageiro. Menos de cem metros do endereço solicitado um moço salta no meio da rua, agita o celular. É o meu próximo passageiro. É grande. Paro, antes de entrar bate no vidro do passageiro, abaixo, pede que eu puxe o banco do carro até o final, puxo liberando mais espaço entre banco de trás, ele protesta, é para abrir espaço na frente, volto o banco até o final ele abre a porta e entra, o carro afunda, amortecedores rangem, molas gritam, estofado cola no assoalho ao som de ar sendo expulso pelos poros de espuma. Confirmo nome e destino, o moço ajeita o encosto do banco para quarenta e cinco graus, recomendo que levante um pouco o encosto, ele diz que precisa dividir o peso no carro e ri, mas retoma o encosto uns vinte graus na vertical. Puxa o cinto, ajudo travar. Começo a manobrar e ele pergunta se posso aumentar o ar. Mudo para o máximo. Pergunta se tenho balinha. Diante da negativa gargalha como se tivesse ouvido a melhor piada do mundo: "estou na maior larica, mano". Não sei se está brincando ou falando sério, os olhos estão vermelhos, deve ser verdade! Abre o vidro e diz que é para não ficar cheiro no meu carro: "o próximo passageiro vai te reportar" ri como se tivesse Jerry Lewis contando anedotas. Desligo o ar, pede que deixe ligado, não discuto. Não ligo. Abro meu vidro e os vidros traseiros. Pergunta se tenho água e responde ele mesmo: "só no radiador". Cada frase acompanha uma gargalhada. Eu rio junto pensando que ele frequenta o grupo UDD. Pergunta meu nome e antes que eu responda me interrompe: "tô podre de fome, pode parar na primeira padaria ou lanchonete ou carrinho de cachorro quente?" Respondo que sim e digo meu nome. Pergunta se sou carioca, digo que sou de Minas Gerais, suspira aliviado e diz que só se fode na mão de carioca: "mas todo mineiro que eu trombo vira meu amigo". Gargalha, na dúvida rio também. Diz que vai fazer a bariátrica, que seu peso passou dos limites e vai se livrar da banha, ri de si mesmo e percebo alguma tristeza. Fala um palavrão atrás de outro. Pergunto se já tem data pra cirurgia, diz que sim, e que está morrendo de medo. Faço piada: "deixe para morrer depois que emagrecer, os carregadores de caixão vão agradecer". Ri desesperadamente, me chama de filho da puta, virei seu melhor amigo. Pergunta se eu fumo. Não fumo. "Você é inteligente, eu sou um gordo que fuma pra caralho". Mais uma vez a risada tem traços de tristeza: "sou burro pra caralho. Um burro gordo do cacete, tô fodendo com meu corpo". Ri olhando para o infinito através da janela, eu não sei o que dizer, não rio. "Mas agora vou operar e me cuidar, estou chegando nos trinta... Vou me virar nos trinta" gargalha. Para de rir abruptamente, pensou em algo, resmunga palavrões tentando tirar o celular do bolso, o banco range, não digo nada, ele finalmente vence a batalha e liga: "Doutor, desculpe ligar novamente, mas tenho outra dúvida" do outro lado alguém dá anuência ele continua: "quanto tempo após a cirurgia eu vou poder fumar?". Um minuto de silêncio, está suando: "antes e depois?" Xinga com a resposta, as notícias não parecem boas: "...tudo isso?". Passa as costas da mão na testa, as notícias parecem péssimas: "doutor, me diz uma coisa, nem maconha?". Vai de puta que o pariu a aleluia. Eu solto uma gargalhada. Figuraça, tá na maior onda. Do outro lado desligam, fica olhando a tela do celular, sua fisionomia estampa a mais legítima tristeza: "vou desistir dessa porra!" - não ri pela primeira vez. Não digo nada, só dirijo. O waze aponta mais seis minutos de viagem quando ele avista o bar de esquina, pede para encerrar a corrida: "preciso comer!". Desce com dificuldades, abaixa a cabeça na altura da janela, agradece e diz que vai me dar cinco estrelas. Ganha cinco também, ótimo passageiro.

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