segunda-feira, 14 de maio de 2018

ELA FAZ TUDO SEMPRE IGUAL

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Começou com tudo para dar errado, o endereço de origem era um laboratório, cheguei e não tinha ninguém com cara de "estou esperando uber" então mandei mensagem para a moça: 'boa tarde' em seguida informei que estava no local e aguardava. A resposta: "estou na padaria que faz pão". Claro que não foi isso, ela enviou o nome da padoca, mas não vou fazer propaganda. Eu poderia ficar irritado, quase dois quilômetros rodados para descobrir que não tem passageiro ali? Poderia ter esperado cinco minutos e ganhar taxa de cancelamento, estava no local solicitado e qualquer júri me daria ganho de causa. Poderia pedir um misto quente para a moça, baita fome. Poderia ter feito o que fiz: "Qual o endereço da padaria?". A distraída percebeu o equivoco, havia chamado pelo último endereço salvo no aplicativo. Pediu desculpas, se preocupou em saber o que poderia fazer. Solicitei novamente o endereço da tal padaria, menos de um quilômetro de distância, fui lá! Mulher jovem com menina, aparentando quatro anos, a menina. Ofereci cadeirinha, afivelou a filha, deu um tablet e a pequena começou torturar alguma Peppa. Só ouvia os gritos a cada dedada na tela touch. A mãe pediu e a menina tirou o volume. Já em transito a mãe confirmou: "Está aí endereço tal?" Sim, respondi. "Seu nome é Adalberto?" Sim. "Está pagamento em dinheiro? Sim. "O senhor tem maquininha para débito?" Sim. "Então já vou pegar o cartão". Pelo barulho de mexe-remexe percebi que a bolsa estava cheia. Minutos depois ainda mexia na bolsa, despejou tudo no banco, quilômetros depois ainda mexia na bolsa. Finalmente ouvi um "Achei" e pelo retrovisor vejo a mão com um cartão. Liguei a maquininha e ela ligou o celular, som de candycrush. Tirou o volume. Viagem silenciosa até o fim. Fechei a corrida, falei o valor esperei. Pelo barulho de mexe-remexe percebi que remexia na bolsa cheia. "Meu Deus, eu peguei o cartão agora mesmo"! Minutos depois ainda mexia na bolsa, despejou tudo no banco, guardou tudo. Abriu a porta, desceu olhou embaixo do banco, no vão da porta, finalmente lembrou que havia colocado o cartão no sutiã. Veio até o vidro do passageiro, me entregou o cartão, cobrei, ela recolheu tudo no banco de trás e saiu. Dei quatro estrelas e fui, virando a esquina um sombra que Deus criou exclusivamente para motorista uber estacionar. Parei, bora aguardar tocar. Cinco minutos depois ouço: "Cadê a mamãe?". Gelei! Os pensamentos pareciam pipoca em panela quente com a tampa fechada. Girei o pescoço lentamente, esperando que no banco atrás de mim fosse um fantasma. Seria ótimo se fosse uma assombração. "Seja um poltergeist. Seja um poltergeist. Seja um poltergeist...". Não era um poltergeist. A menina estava tranquila, ainda torturando a Peppa, fizera a pergunta por distração sem tirar os olhos da tela. Eu gelado, calado, sem reação. Vinte segundos depois me ocorreu tranquilizar quem estava tranquilamente esperando que a mãe voltasse tranquila de onde quer que tivesse ido: "Mamãe foi ali jogar CandyCrush e já volta". "Tá bom" - torturar a Peppa estava mais interessante. Dei a volta no quarteirão, parei em frente o condomínio ao mesmo tempo que o carro de polícia. Até explicar que a mãe não tinha feito falsa comunicação de crime e que eu não era o criminoso da falsa comunicação de crime e que por eu não criminoso também não existia verdadeira comunicação de falsa denúncia... enfim. A mãe levou um senhor esporro do tenente que chegou na sexta viatura. Eu levei um senhor esporro do sargento que queria mostrar serviço pro tenente, porque não vistoriei o carro antes de encerrar a corrida. O porteiro levou um senhor esporro do cabo, porque estava filmando tudo. Ainda tive que apresentar documentos do carro comprovando que estava tudo ok. De alguma forma queriam algemar alguém, nem que fosse o carro! Saí da muvuca, liguei novamente o aplicativo só para alterar a nota da passageira, uma corrida que começa com tudo para dar errado, não tem como terminar dando cinco estrelas. Uma estrela está de bom tamanho. Nunca alguém fez tanto por merecer!

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