"Bom dia Senhor Adalberto!" Simpatia é outro nível, passageira na calçada, ainda nem encostei direito e já cumprimenta falando o nome do motorista. Gosto disso! "Bom dia gentil passageira!" respondo sorridente, antevendo uma viagem agradável. Ela dá a volta, abre a porta atrás do carona: "Com licença, senhor Adalberto." Claro, pois não, o que é que eu posso fazer para deixar sua viagem mais agradável? Se é balinha não tenho aqui, se é água também não, mas com toda sua simpatia paro num posto de gasolina e compro até cafezinho... Não pergunto nem prometo nada, apenas confirmo o endereço de destino: "Vamos para a Brigadeiro?". Aqui em São Paulo não falamos 'Rua Tal' ou 'Avenida Fulana'. Dizemos o nome abreviado, de preferência, e todo mundo se entende. Temos duas Avenidas Brigadeiro qualquer coisa, mas a Avenida Brigadeiro Faria Lima é só Faria Lima e a Avenida Brigadeiro Luís Antônio é a Brigadeiro, quem é daqui não confunde! "Sim, por favor senhor Adalberto" e já pergunta a duração do percurso: "Quanto tempo previsto para chegarmos, senhor Adalberto?" o waze diz quarenta e seis minutos. Informo e ela agradece: "Obrigada, senhor Adalberto." Definitivamente tenho uma passageira educada dentro do meu carro, fico feliz. Ela se ocupa com algo no celular e eu com os zigue-zagues, valetas de esquinas e crateras de asfalto nas ruas dentro do bairro. Em minutos estamos na Politécnica, que qualquer paulistano sabe, é Avenida Escola Politécnica. Parado no semáforo eu busco a nota dessa gentil passageira, curiosidade. Três ponto sessenta e oito. Fico surpreso! Como assim? Tão gente boa com uma nota tão baixa? Não digo nada. O farol abre e ela comenta: "Está friozinho hoje, né senhor Adalberto?" Concordo, realmente estamos com temperatura agradável, dispensa ar condicionado. A gentil senhora desistiu do celular e puxa conversa: "Quanto tempo dirige uber, senhor Adalberto?" respondo e ela avança: "Tem outra ocupação, senhor Adalberto?" antes que eu responda ela emenda "meu cunhado é arquiteto e também dirige uber, sabia senhor Adalberto?" vou responder que não sabia, até abro a boca e começo a soltar o verbo, mas o ar é cortado: "essa crise pegou muita gente, né senhor Adalberto". Estou ficando cheio desse 'Senhor Adalberto' porém, ela ainda tem vários 'Senhor Adalberto' para soltar. As frases dela não terminam em ponto final, terminam em 'Senhor Adalberto'. "Ainda temos trinta e oito minutos de viagem, senhor Adalberto?" eu diria que sim, se ela me deixasse falar "Tudo bem, senhor Adalberto, eu saí mais cedo prevendo que o trânsito estaria mais carregado". Ufa! Uma frase que não terminou em 'Senhor Adalberto'. Nem tenho tempo de agradecer, ela emenda um assunto no outro. Estamos paralelos com a raia da USP, em cada metro avançado no trânsito eu ouço algo terminado em Senhor Adalberto: "Eu tenho CNH senhor Adalberto" acelero. "Meu marido não me deixa dirigir senhor Adalberto" paro. "Meu almoço terá mais carboidratos, senhor Adalberto" dou seta. "Esse muro de vidro ficou mais bonito, né senhor Adalberto" mudo de pista. "Ainda não assisti Vingadores, você já assistiu senhor Adalberto?" Estou irritado de tanto ouvir 'Senhor Adalberto'. Eu realmente não aguento mais ouvir falar em senhor Adalberto. Estou odiando o senhor Adalberto. Eu poderia matar esse senhor Adalberto! Ela parece amar dizer 'Senhor Adalberto'. O sorriso é o mesmo de quando disse "Bom dia senhor Adalberto" lá na calçada, mas eu já não recebo como gentileza. Ainda falta contornar a ponte Cidade Jardim, que ninguém conhece pelo nome e todo o Parque do Povo, que obviamente tem outro nome - mas ninguém sabe quem é o tal Mário Pimenta Camargo, ou subir a Cidade Jardim - que não é a ponte, a avenida realmente se chama Cidade Jardim. Trânsito travado em ambas as opções de rota, vou ouvir milhares de vezes 'Senhor Adalberto'. Até me conformo. Um motoqueiro passa buzinando, xinga o motorista do carro a frente, isso distrai a atenção da irritante senhora, aproveito e aumento o volume do som, quem sabe ela para de falar 'Senhor Adalberto'. Na playlist tem seleção de Marisa Monte, é um bálsamo auditivo! Após cinco minutos sem ouvir 'Senhor Adalberto' estou quase calmo. Começa outra canção "Ainda bem / Que agora encontrei você / Eu realmente não sei / O que eu fiz pra merecer / Você..." a gentil senhora bate três vezes no meu ombro para chamar minha atenção, pede que abaixe o volume, obedeço e ela recomeça: "Adoro essa música, senhor Adalberto". Eu surto: "Então vamos ouvir a música!" antes que ela diga novamente 'Senhor Adalberto' eu aumento o som. Exagerei no volume. Ela bate seis outras vezes no meu ombro, finjo urgências com manobras no trânsito, pode pedir que não vou baixar o som até chegar na Brigadeiro. Marisa monte deu lugar a outras vozes, nenhuma falou 'Senhor Adalberto' eu agradeço não ter meu nome na MPB. Não sou muso. Nem santo. Ignoro a passageira até chegar no destino. Finalizo a corrida sem baixar o volume, pela leitura labial ela insiste em agradecer e repetir 'Senhor Adalberto'. Faço sinal de jóinha e sorrio, ela finalmente desce. Estou odiando meu próprio nome quando avalio a passageira. Ganharia cinco estrelas, não fosse o fator Senhor Adalberto.
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