domingo, 13 de maio de 2018

MEIO TONTO SÓ PENSAVA EM IR PARA CASA

Daí toca e vou lá buscar o passageiro. Rua escura, em frente ao endereço de origem uma árvore frondosa com raízes quebrando a calçada e invadindo a rua, nenhuma alma, um morcego faz rasante perto da janela do carro. Levanto o vidro, deixo dois dedos de respiro e aguardo. Quase cinco minutos depois estou rezando para vencer o tempo da multa, vou cancelar e arrancar. Estava na Cerro Corá pensando em ir pra casa, mas não direcionei... O portão do outro lado da rua se abre, surge uma senhora alta, magra, vestida toda de preto, minha intuição não avisa, dá uns berros! Penso que é hora de dispensar a multa e sair vivo. Não dá tempo, pelo vidro entreaberto ouço chamar meu nome e automaticamente respondo o nome do passageiro, fim de confirmações. Ela entra e senta exatamente atrás de mim. Fico cismado quando o passageiro senta atrás de mim, mas manda quem paga, fica quieto quem tem boleto vencido. Repito endereço de destino, ela ignora, pede que eu desligue o rádio e ligue o ar condicionado. Quem não obedeceria? Já definido que ela está no comando, arranco. Nem completei o primeiro giro do pneu, ela manda que eu vire a primeira a direita. Viro à direita, no waze a informação bate. Viagem de trinta e oito quilômetros... Não tenho ideia de onde estou indo. A chuva recomeça, o clone de Mortícia pede que eu siga por três quarteirões e vire novamente a direita, o waze também pede o mesmo. Obedeço, deve estar lendo meu celular - bem visível no painel, penso... Na avenida ela diz para seguir por dois quilômetros e virar na outra avenida. Waze já tinha adivinhado a solicitação dela e pede o mesmo, obedeço a ambos. Após cair na marginal silêncio, nos ermos de minha mente estou transportando a Senhora Frump Addams "Continue por mais tantos quilômetros e vire..." vai ver ela queria ser a moça do waze. Serei sacrificado na mansão dos Addams. Sim, eu penso fezes. É massa ocre divertida, porém fezes. A voz dela me tira do transe. O desenho do waze mandou e automaticamente já dei seta, Mortícia ignora que já dei seta e manda virar a direita, viro. A marginal do rio Pinheiro ficou para trás, os bairros seguros ficaram pra trás, os bairros inseguros também ficaram, chegamos no final do asfalto, meus pelos da nuca arrepiam. A chuva parou, restam pequenas poças de lama. A escuridão e matagal a minha frente são assustadores, uma poça maior, meus pensamentos são um desfile de coliformes fecais! Ela canta o waze pela última vez, chegamos ao destino, Riviera Paulista! Uma chácara isolada, portão alto, várias árvores, morcegos dando rasantes. Relógio marca meia-noite, não poderia ser mais cronometrado! Um homem todo de preto aparece ao lado do carro, segura um guarda-chuva aberto. Não chove mais. Ela mandar encerrar a corrida e aguarda que eu obedeça, pagamento no cartão. Sinto sua respiração no meu cangote e clico na quinta estrela para fingir que estou tranquilo. Ouço a porta se abrir e fechar com gentileza, não resisto, olho para trás só para confirmar que ela saiu. Posso respirar naturalmente. Manobro e acelero, de zero a sessenta em meio quarteirão. Chegando no asfalto percebo que estou suado, o ar continua ligado, o waze diz que estou a quarenta e dois quilômetros de casa. Até a marginal do rio Pinheiro o aplicativo está desligado. Volta a chover, ligo o aplicativo e direciono chamadas, lembro que o carro deve estar pura lama e desligo. Corrida estranha, gente esquisita, não foi legal. Só susto e prejuízo.

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